É bem sabido que a Cidade Antiga está dividida pelo Grande Rio (apesar de não ser verdade) e que há uma cidade —distinta da outra— em cada uma das margens (mesmo sendo falso): os ‘factos’ confundem quem é de fora, um alerta ao viajante recém-chegado para cedo se aperceber de que as primeiras impressões são, provavelmente, ilusões.
Dificilmente escapa ao mais distraído a presença, a função e o significado daquelas pontes. Os mais eruditos, os que dedicam anos e anos a estudar antiguidades e línguas mortas, já haviam assinalado que há nomes que não são coincidências.
(…) cidade donde teve/ Origem (como é fama) o nome eterno/ De Portugal (Os Lusíadas, canto VI)
Perguntou Kublai-kan a Marco Polo se já havia conhecido uma cidade parecida àquela que visitavam, certa vez:
(…) as pontes em arco sobre os canais, os palácios principescos cujos portais de mármore imergem nas águas, o vaivém das barcas ligeiras que volteiam em ziguezague impelidas por longos remos, as chatas que descarregam cestas de hortaliças nas praças dos mercados (…) (As Cidades Invisíveis cap. VI, de Ítalo Calvino )
E Polo respondeu que não, que nem sequer “teria imaginado que pudesse existir uma cidade parecida com esta.”
As actividades do dia-a-dia duma cidade revelam tudo sobre quem ali vive: disso nunca duvidaram os antigos viajantes, fossem eles mercadores de Tiro ou da Rota da Seda, geógrafos helénicos, legionários romanos, peregrinos de toda ou nenhuma religião, vagamundos e argonautas das esquadras de Gama e dos que se lhe seguiram.
Esta Cidade é situada junto com o Rio a que chamam Douro, na qual se fazem muitas e boas naos e outros navios mais do que em outro lugar que no Reino haja. (Crónica de dom João I, de Fernão Lopes)
A Cidade Antiga nunca teve a fama, nem a pretensão, de nobreza ou luxo ostentatório. Mas cedo evidenciou vocação para o comércio e, de modo geral, para os negócios.
Nas margens do Grande Rio, à vista da foz e do Oceano, sua situação é a demonstração de como a geografia se torna uma fatalidade. No cruzamento do Interior Profundo com o resto do Mundo, entre o Norte e o Sul, da Cidade entra-se no Rio para chegar ao Atlântico.
A origem do porto revela-nos a sua virtude, consoante foi aberto por um rio, escolhido pela costa e pelo interior ou pretendido pelo próprio mar. (Breviário Mediterrânico, de Predrag Matvejević)
A tendência para atrair gente de fora sempre a acompanhou. Assim como a vontade de viajar da gente daqui, mas não como turistas ou romeiros, nem como aventureiros ou guerreiros, nem como sábios peripatéticos e artistas vagabundos.
Ou assim fora dantes…
A Cidade nasceu graças ao Grande Rio do Norte.
Na rota terrestre entre o Norte sombrio e frio e o Sul luminoso e quente, já os barqueiros garantiam a passagem duma margem para outra; com as barcas fizeram-se pontes, até chegar a época das grandes construções em ferro e betão.
No cruzamento entre o Interior e o Mundo, os barcos rabelos tornaram-se motivo icónico por mérito próprio. Também graças ao famoso vinho, tesouro das terras de xisto.
Para além dos rabelos (trafegueiros se mais pequenos e matrizes se maiores) adequados para o transporte de pipas, havia os rabões para o carregamento de outro tipo de mercadorias (madeira, pedra e minério) e ainda os valboeiros indicados para a pesca. (Duarte & Barros 1997, citado in Navegação do Rio Douro—o sonho (re)corrente de Castela, de Carlos d’Abreu)
Que a margem norte tenha maior relevância do que a do sul torna-se evidente para o caminhante que atravesse qualquer das pontes. O Grande Rio sempre foi uma fronteira natural, as migrações humanas que se sucederam ao longo de milénios misturaram-se, a bem e a mal, com populações residentes.
A fronteira natural acabou por favorecer outras fronteiras, e nenhuma tão acentuada como a do norte atlântico frente ao sul mediterrânico. Porém, esta é uma verdade tão equívoca quanto a de dizer que o Douro separa o Porto de Gaia.
Existem fronteiras insuspeitadas como a que “existe” entre a zona oriental e o resto da Cidade. Muitos nativos até poderão negar sua existência. Talvez seja mais correcto dizer que é um território por descobrir, apesar de tanta gente atravessar as pontes do lado oriental, seja de automóvel, de barco ou de comboio.
Aqui, entre tanta outras coisas, está a maior praia fluvial da Cidade, erguem-se monumentos da arqueologia industrial e palacetes barrocos, sobrevivem espaços da vida rural e piscatória.
Como todo o viajante sabe por experiência própria, há etapas onde tem de saltar do meio de transporte que use para meter pés ao caminho, mesmo quando não esteja visível —al andar se hace camino, já dizia o poeta nas margens do Grande Rio.
Mudando de perspectiva e de ritmo, o caminhante poderá passar por onde outros —milhares ou milhões de outros— passaram e ter uma epifania só sua.
Ou não, claro.
Também se podem traçar fronteiras entre o novo e o velho, fronteiras absurdas num povoado que cresceu acumulando as camadas do Tempo sob os alicerces das casas. Facilmente o viajante consegue enquadrar no mesmo plano a cidade medieval e a cidade do século XXI, com todos os séculos de permeio. Além disso, esta é cidade que se orgulha da sua Escola de Arquitectura e dos seus engenheiros.
Por vezes, os horrores de tempos passados ganham cidadania, talvez por terem estado “sempre ali” aos olhos das gerações que vieram depois.
Outra coisa é o “feísmo urbanístico” que assumiu proporções de praga bíblica no último quartel do século passado, e coisa outra é a tentação de encantar turistas com espaços estereotipados que pululam nos centros históricos do Velho Mundo e arredores.
Ao viajante calejado em longas leituras, seja leitora de cabelos soltos pisando o terreno com a prudência de não cair no lugar-comum, seja antiquário de olhar aguçado a quem todo o brilho causa desconfiança, a Cidade Antiga é uma cidade viva porque ali vive gente e a mudança é a sua História.
Cuida o leitor porventura, que se fazem lá os enterros como em Lisboa, gastando as horas mais proveitosas do dia, e orçamentando uma verba especial para carruagem de acompanhamento? Cada um tem a sua vida, e a vida de cada um não é positivamente a de gato pingado. Só á noitinha, por isso, é que os convidados vão dizer ao morto último adeus, assistindo aos officios religiosos na egreja onde está depositado o féretro. Coisa de um quarto de hora, quando muito, (…).
A ceremonia foi satisfeita e o portuense, que não perdeu o dia por causa de um morto, também não se julga obrigado por tal motivo a perder a noite, que vae passar no café, no theatro, ou em qualquer casa particular, onde as qualidades do finado são discutidas com a puxada que obriga a naipe, na clássica bisca de familia. Gente practica e sensata; (…). (in O Minho Pittoresco, de José Augusto Vieira-1887)
O viajante de tempos mais recuados, quando arribava de barco, de comboio ou numa esforçada mula, sofria impressões desencontradas, consoante a sua origem: uns nunca tinham visto cidade maior; outros estranhavam o granito sombrio, o rio medonho, o céu chuvoso; e havia quem tanto apreciasse o espírito diligente como se trabalhava, como as oportunidades para dissipar fortunas em prazeres fugidios.
(…) os do Porto têm a natureza dos chinos do Punchin—que têm por virtude a prenda de enganarem a todo o mundo como máquinas astuciosas; assim é a maior parte dos portuenses, que assentam que ninguém sabe mais do que eles (…) (João de Mansilha, procurador da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, em Lisboa—citado por Agustina em Sebastião José)
Não sendo único, este é um caso bem documentado: o ambiente que caracteriza a Cidade e os moradores denota a tensão dos elementos naturais, como o céu volúvel, o granito sombrio, o rio temperamental, a luz variável, o mar violento.
Entre o Grande Rio e o Oceano a tensão tornou-se mais evidente com o passar dos séculos: tanto dava impulso à vida da Cidade, como a atrofiava em surtos violentos. Se fizermos justiça poética, pode dizer-se que o mar reclamava o tratamento de privilégio que sempre fez por merecer.
Abrindo o porto de mar em detrimento do porto de rio, a Cidade ganhou novo fôlego e amplos espaços. E como se pode ver pela história recente, o porto de rio mantém idêntica importância e valor simbólico. Sem que em nada percam, mar e rio, sua tensão natural.
Por mais barragens e molhes se construam…
Cada uma a seu modo, na linha das antepassadas desaparecidas e dos barqueiros de outrora, as pontes da Cidade são a expressão das tensões quotidianas que animam os moradores e a toda a região, cujos limites foram, desde sempre, imprecisos.
O Porto fúnebre, na cor parda dos seus granitos, nas sombras verde-negras das suas encostas de pinheirais, no chapéu de nevoeiros que o cobre, aparecia com um aspecto tumular: lá no fundo, torvo e sombrio, corria o Douro, um lethes onde se afogavam esquecidas as ilusões doiradas! (Portugal Contemporâneo, de Oliveira Martins)