Rio Minho   Leave a comment

 

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Junto aos rios que fogem do abraço das margens corre a tensão entre o desejo de ficar e a urgência em prosseguir.

Atravessando rios na fronteira entre o mundo conhecido e os mundos por conhecer, quem passa teme perder a memória de quem é e ao que vai.

E tem rios que fluem de modo ao caminhante redescobrir-se parte de um mundo para além das 24 horas do dia-a-dia. Como o rio Minho.

 

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Correndo entre rochedos e seixos, a urgência das águas afunda o silêncio da noite na reverberação.

Em lugares assim, o silêncio não é ausência: a todo o instante sua presença é realçada pelo grito da ave nocturna ou pela voz de mulher, pelo ladrar furioso e por inquietações agitando a brisa. Mas as águas correm silenciosas a pedido da própria Virgem: Río Miño/ passa caladiño,/non despertes ó meu Neniño

Ao longe, entre o arvoredo, há luzes de casa ou povoado; lugares onde a presença humana está em harmonia com o ambiente natural. E o valoriza.

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Quando o horizonte se cobre de fantasmagorias são as horas do nevoeiro noite adentro, madrugada fora. E das pequenas embarcações que sobem, descem e cruzam o rio, transportando vultos embuçados numa busca em que, sendo a lampreia rainha, o salmão é o Santo Graal.

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Ao longo  do dia atravessam as pontes caminhantes de estirpe longeva, herdeiros da tradição milenar que vai da porta de suas casas até ao túmulo improvável de um apóstolo de Cristo. Dele se diz que veio a enterrar em campo de estrelas, na terra atlântica coberta de verde e névoa.

O mais certo é irem venerar o túmulo de um bispo condenado por heresia e decapitado por ordem de um imperador romano. História de que podem nem ter ideia, mas em nada diminui sua devoção e esforço.

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Nada é o que parece na terra coberta de neblinas vindas do Oceano e onde o nevoeiro acompanha o Minho da nascente à foz. Quando a História pisa terreno movediço, estórias surgem em duvidoso apoio na forma de lendas e ancestrais memórias.

Em tempos, nas margens do rio levantou-se um mosteiro. A vida tornou-se aborrecida para os piedosos frades, obrigados a comerem salmão do Minho a quase todas as refeições. Reclamaram a quem tinham de reclamar e reclamaram carne.

O caminhante, quando toma conhecimento deste e doutros magnos episódios da história local, deverá desconfiar se o paraíso não é, mais do que um lugar, um estado de espírito.

 

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Contra toda a evidência, há mapas e cabeças a traçar uma fronteira no vale do Minho. À sua maneira têm razão, avaliando pela quantidade de cidades fortificadas, fortalezas e castelos que pontuam ambas as margens do terço final do rio.

São testemunho do que há de arbitrário e de acidental na formação dos países. Prosaicamente, o caminhante que desça das Rias Altas até à margem sul do Douro (ou vice-versa) e escute vozes que digam auga ao referirem-se à água, não precisa de mais para saber que está no reino encantado do Minho.

Deixáime ir que vou de presa,/que vou abrir unha poza,/

que teño a auga encharcada/no corazón de unha moza

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Seja qual for a margem, tanto a de como a de , o caminhante entrega-se tranquilamente àquilo que o trouxe até ali. Seja o que for.

O nevoeiro poderá confundi-lo, é certo. Mas quando isso acontece, está no bom caminho; o azar é daquele que enfrenta os horizontes enevoados carregado de certezas claras e de ideias feitas.

Se caminhar junto ao Minho obriga a certas cautelas, nadar ou navegar nas suas águas ainda mais obriga.

As velocidades das correntes são muito variáveis conforme o logar da observação, a hora da maré, o estado do rio, o rumo, a intensidade do vento, a idade da lua, etc. Parece fora de duvida que a corrente de vasante é sempre muito mais forte do que a de enchente, o que aliás se dá em quasi todos os rios sujeitos a marés. (Os Portos Marítimos de Portugal e Ilhas Adjacentes, por Adolpho Loureiro-ed.Imprensa Nacional 1904)

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À beira-rio e pelas encostas, o caminho dos bosques segue o traçado deixado pelas criaturas nocturnas, também elas em busca de algo. Algo vital, pode o caminhante presumir.

Algures pelos bosques surgem coisas. O que sejam depende a quem surjam elas: tem olhos que passam pelas coisas sem as ver, pernas que andam sem chegar a lado algum, cabecinhas que desatinam fora dos espaços humanizados. A esses, nem a névoa, nem o bosque, nem mesmo o rio, são vias e portais para horizontes insuspeitados.

São aqueles para quem o rio só tem sentido quando se anda numa moto d’água. Outro modo de dizer que, sem uma moto-4, todo o caminho vira um tédio. Na melhor das hipóteses, deparam-se frente a casas abandonadas, santuários esquecidos, ruínas: tudo a que chamam, com toda a propriedade, de pedras velhas.

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Os antigos habitantes tinham noção de tudo isto, avisando os incautos a não saírem em certas noites, a evitarem ermos, a terem cuidado ao cruzar caminhos e pontes. E rios, claro.

Meniña, ti eres o demo/que me andas atentando;/que no río que na fonte/sempre te encontro lavando.

Até o mais distraído não está livre de se encontrar com o que não espera. Sem excepção, os que regressam trazem uma estória de ilusão e decepção para contar. Por vezes, aquilo que brilha é mesmo ouro…

Meigas* ou mouras**, e mouras meigas, sempre surgem em tais lugares a tais horas.

* Feiticeira, fada ou bruxa, no galaico-português a norte do Minho
** Ser fantástico que pode, ou não, estar associado na lenda aos Mouros históricos

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A sabedoria dos caminhantes de antanho ensina o novato a procurar um povoado antes do sol-pôr. Arribando pelo sul, os peregrinos do Campo de Estrelas cruzavam o rio frente a vetusta cidade episcopal onde eram acolhidos.

Por aqui passam, ainda hoje. Os que se deslocam sentados raramente têm vagar ou curiosidade para se perderem no emaranhado das ruas medievais.

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montagem fotográfica com escultura de Juan Muñoz

 

As pedras velhas também falam sobre quem passa. Passa e não para. Ou talvez pare e, parando, é para comprar caramelos e recuerdos. Dias depois, se lhes perguntam por onde andaram…nem ideia.

Onde?! Em Espanha!—responderão os mais esclarecidos…

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As pedras velhas só não falam para quem seja surdo à sua linguagem: esculturas, arcos e colunas, tímpanos, janelas, escadarias, são frases ou vocábulos espaçados e pontuados por silêncios, vazios, arestas, curvas, e o que dizem varia dum lugar para outro. Falam, inclusive, para quem as queira escutar, ainda que não as entenda.

Se não é fácil entender, ainda menos de explicar. Se calhar, o melhor é calçar as botas e meter pés ao caminho, percorrendo as trilhas ao longo das margens do Minho. Sempre que algo (alguém, uma tabuleta ou a mera intuição) aponte outro percurso, outra perspectiva, talvez seja de seguir o novo rumo.

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montagem fotográfica com pintura de Marques de Oliveira

Apesar da ignorância, a sensibilidade desperta o interesse e o caminhante curioso é irremediavelmente ferido pela seta do desejo. Do desejo à paixão vai a distância de um olhar…e se há paixões passageiras, outras são fatais.

São velhas estórias escutadas na infância distante, algumas leituras avulsas, a memória de conversas que já se julgavam perdidas, o trautear involuntário duma simples melodia. Ou algo parecido com não se sabe bem o quê. Tudo vias abertas ao  entendimento.

Mesmo sem entender, um raio cai sobre aquele que se atreve, iluminando a passagem…e a viagem ganha sentido.

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Quem chega de fora é surpreendido pela sonoridade dos ditos e falares, pelas tradições comuns, pela transumância humana entre as duas margens. Afinal, as feiras, romarias, arte, história, língua, podem mais do que castelos e fronteiras.

Si foras a Portugal/ non fales com portugueses/ que eles prometen e dan/ semente de nove meses

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Serras e montes acompanham o Minho até ao mar. À serra da Arga sobem mulheres procurando a inspiração procriadora, seja por intermédio de santa Justa, seja de espírito santo ou pagão.

Miña Virxen dos Milagros/os milagros vanse vendo:/as raparigas de agora/vaille a barriga crescendo

É na romaria ao São João de Arga, com seus cantares, danças e concertinas, onde se manifesta a maior devoção popular. E os romeiros descem a serra com terra recolhida em redor da capela do santo Aginha, formidável ladrão que, depois de morto, faz milagres e cura as febres intermitentes.

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A Ínsua de Santo Isidro, entre o Minho e o Atlântico, surge aos olhos do caminhante como a materialização do mais-além. Talvez assim fosse, também, aos olhos da população do castro de Santa Tecla e da cividade de Ancora.

O monaquismo cristão, inevitavelmente, ali encontrou pouso inspirador para levantar um mosteiro de dimensões acanhadas e tão rigoroso era o ascetismo dos seus primeiros monges, que da pesca viviam quasi exclusivamente e apenas a dois, d’entre dez que eram, se permittia o uso do vinho. No refeitório não havia cadeiras e todos comiam de joelhos. Este rigor disciplinar fez com que o convento fosse elevado a casa de noviciado, pelo menos de 1447 em diante, tendo principiado aqui a sua vida monachal alguns frades celebres (…). (in O Minho Pittoresco de José A. Vieira, ed.Livraria de António Maria Pereira, 1886)

Privações típicas da vida religiosa que as quadras populares recordam, porém, de modo diferente: o cura vendeu a burra/ por non lle dar a cebada,/ agora vai os enterros/ a cabalo da criada.

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Há registos das águas recuarem tanto, e por vários dias, que se podia passar a pé da mata do Camarido ou do Moledo até à Ínsua. Piratas ou disputas de fronteira obrigaram à construção duma fortaleza, mas quem lá vai já não vê quem a defenda, tal como outro caminhante e escrevinhador teve a fortuna de encontrar.

Ali travou conhecimento com o seu único habitante: (…) tendo apenas uma vez vindo a terra [em 20 anos], o commandante do forte, o bom sargento Ferreira, que logo de manhã, feliz como Robinson na sua ilha deliciosa, encontrámos lavando pacientemente a sua roupa, proximo da nascente d’agua doce que a Insua tem, nascente que a lenda diz ter sido revelada a Fr. Diogo Arias por uma formosíssima apparição feminina, quando o monge meditava em prover d’esse elemento o seu austero cenóbio , (…) a palavra um pouco tartamudeada pelo alcoolismo, o olhar indiíferente e baço, o rosto sem contracções, cosinheiro de si proprio, alfaiate de si mesmo, lavadeira, sachristão do templo, horticultor e commandante, tudo emfim o que póde ser um homem só, em pleno mar, e por cima de tudo indiíferente e bonacheirão (…). (José A. Vieira, op.cit.)

O caminhante-escrevinhador supôs ser por efeito da fada gentil, a Natureza que o sargento não abandonava a Ínsua havia duas décadas. Provavelmente, estava certo.

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Nem sempre há uma Penélope aguardando pelo regresso, mas se o bom sargento teve a sua, a Ínsua terá suas Circes ou Calipsos… e nem todos têm a determinação de Ulisses.

Eu enamorar, enamorar, enamoreime,/ enamoreime na veira do mar;/

eu enamorar, enamorar enamoreime/ e non me pude desenemorar.

A névoa do rio encontra-se aqui com a do mar, esbatendo cores e formas na rotação das marés com as luas.

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Na Ínsua, a apanha do sargaço, ou do marisco, e o contrabando foram faces duma só moeda, unindo ambas as margens. O mais além duma vida, senão melhor, esperançosa.

Sem outros limites do que a força da corrente fluvial e a do vai-e-vem das marés, a foz do Minho alarga os horizontes. Fatigado, o caminhante, na beira do mar,/ ó pe das ondiñas/ que veñen e van, recorda Rosalía quando canta na lengua que eu falo, e com ela repete Lugar mais hermoso/ non houbo na terra/ que aquel que eu miraba.*

* in Cantares Gallegos, de Rosalía de Castro

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