
… noutros tempos, desembarcava-se na praia e a incógnita era se habitavam pelas redondezas formosas ninfas ou ciclopes canibais. Ou ambos.
Sendo náufrago, ficava-se sujeito aos humores dos nativos que lhe seguiam as pegadas deixadas no areal, dele abusando ou devorando depois. Ou faziam-no rei da Cocanha.
Por vezes, uma cidade dourada brilhava no horizonte prometendo prazeres imperdoáveis e fortunas comparáveis às de Midas e de Creso juntas.

De entre Cila e Caríbdis escapou a custo Ulisses.
O próprio Sindbad, que dizia de si mesmo que escapava duma calamidade para cair noutra maior, quando quis pagar ao capitão do barco que o resgatou da ilha onde naufragara durante a quarta viagem, este negou-se a receber por ser costume ajudar os náufragos sem qualquer interesse.

Nisto, como em tudo o mais, as pessoas dividem-se: as que chegam ao Litoral e arrepiam-se ao ver o imenso mar sem outros horizontes senão o Desconhecido, e as que, arrepiando-se, vêm o horizonte sonhado.
Pois não foi o mesmo Sindbad que reconheceu esquecer os sofrimentos e perigos sofridos nas viagens anteriores, possuído pelo desejo de viajar e ver países e ilhas desconhecidos, assim começando nova viagem pelo mar?

É bem certo que todos os relatos de marinheiros, de argonautas ou de mero náufrago em qualquer ilha, seja deserta ou muito pelo contrário, assumem contornos inverosímeis para aqueles que não se atrevem a embarcar.
Já na advertência Ao Leitor da 1ª edição da Peregrinação se avisava que ainda que seja de cousas muito novas e peregrinas, devem ser cridas, assim pelas referir e afirmar um Autor de tão conhecida verdade, as viu e palpou com as mãos.
Recomendação desnecessária nos relatos de Ulisses e de Sindbad… mas esses tinham sido tempos em que o mundo fora maior, não estava ao alcance de qualquer um partilhar a ignorância dos sábios, os encantos e os prodígios desequilibravam a ordem das coisas e vivia-se a vida consoante os Fados.

Hoje em dia, outras sereias cantam seus encantos ao aventureiro que esteja no litoral, frente a um mar que se quer paradisíaco, de águas tépidas e areais dourados, convenientemente próximo de hotéis, bares e tudo o mais que se convencionou como essencial para umas férias de sonho.
Porém, o náufrago contemporâneo é enclausurado em lugares que os eufemismos podem variar no nome, negando-se-lhe a esperança, sofrendo tormentos.
Fernão Mendes sofreu na própria carne, mas teve a felicidade de escapar ao triste fado e a arte de escrever para contá-lo.

O navegante actual que aviste terra poderá ser tentado, como o de antigamente, a rumar ao porto mais próximo e promissor. Se for prudente, manter-se-á a distância segura para não se desiludir em mais um centro turístico igual a tantos outros, arruinando o prazer e a fortuna dum avistamento que o leve a enfrentar a sedução do mar interior de que falava Thoreau.

É da elementar física contemporânea que a poética dos espaços esteja relacionada com o tempo, seja o do tempo presente, seja o de outro tempo qualquer.
Já a filosofia moderna divergia entre a poesia empirista, que a entendia independente do poeta, e a poesia idealista que privilegiava o olhar deste; de qualquer maneira, hoje é do senso comum que o observador condiciona o observado no momento em que observa: há um gato vivo ou morto dentro duma caixa fechada. E tudo isto demonstra a lei fundamental da Poesia de que o contemplativo nunca mais será o mesmo depois de tocado pela beleza da Musa ou pela loucura dos Deuses.

Alertava a sabedoria náutica antiga de que se pode ir de mal a pior: numa época de viagens com bilhete de ida-e-volta, programas de aventura e destinos paradisíacos, regime de pensão completa ou tudo-incluído e livro de reclamações, o viajante arrisca-se a virar mercadoria e despachante.

Há mar e mar, já o dizia um poeta em terra*. Parafraseando-o, pode-se acrescentar: há ir ou voltar.
∗ Alexandre O’ Neill

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