memória futura   Leave a comment

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Sob o céu variável de sempre, abraçando o rio que lhe está na origem, a Cidade mantém constância na capacidade de se recriar, metamorfoseando-se com o passar dos milénios. Ou de uma década, tão-somente. E a velocidade da mudança confunde a memória.

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Lenta mas inexoravelmente, a Cidade chegou às bordas do Atlântico com quem sempre teve a proximidade cúmplice, abrindo-se-lhe as portas do mundo. Entre o rio e o mar a relação é mais antiga, conflituosa a ponto de provocar cheias e naufrágios.

Todavia, é do Oceano que partem as nuvens úberes que hão-de chegar às montanhas do Interior, alimentando a maior bacia fluvial ibérica. Há que lembrá-lo uma e outra vez: a atmosfera peculiar da Cidade deve-a ao rio e da chuva brilha a luz que a ilumina.

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As memórias dos tempos idos têm a robustez das narrativas épicas e a falsa virtude da amnésia selectiva, afagam o amor-próprio tribal, reforçam a coesão dos habitantes aqui e agora.

Poucas são aquelas que a Cidade conservou ao longo dos séculos: que do seu nome se deu nome a uma nação; que reservou para si as tripas das reses enquanto enviava as carnes para alimentar exércitos que partiam à conquista de novos mundos. E que se manteve invicta em defesa da Liberdade, sob a liderança de um rei-soldado.

Poucas, talvez… mas ao contrário das lendas e milagres tão vulgares por outras paragens, estas são História.

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Narrativas históricas sofrem lapsos de memória. A serem bem construídas, exigem de si mesmas o esforço de levantar a pedra das fundações, revolver o chão e esmiuçar detritos, tanto em sentido literal como simbólico. Por vezes, brilha algo entre os escombros da memória. Ainda que raramente, pode mesmo ser ouro.

Que os desafios do futuro se preparam no presente, é sabedoria avulsa vulgarizada num qualquer discurso de dez de junho. Que dizer, então, dos distintos futuros possíveis que se abrem graças ao conhecimento crítico do passado?

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Até as glórias do presente ou do passado recente podem estar manchadas na origem por dolos patrimoniais e pela boçalidade dum qualquer progresso a todo o custo.

Mudanças embrulhadas numa retórica pragmática, em debates públicos com falta de comparência do contraditório, reflexos de vivência cívica anémica. Seja como for, já houve piores tempos.

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Entre lentes que deformam, para só se verem qualidades, e a luz crítica sobre o espaço público, a metamorfose da Cidade é imparável. Permanente é o rio que lhe dá a vocação de ser abertura do Interior para o Litoral, e daí para todo o Mundo.

Rio que era ponto de passagem entre o Norte e o Sul já no tempo dos romanos, depois fronteira que garantiu segurança aos reinos da Galiza e de Leão. O Grande Rio do Norte tornou-se via fluvial para os vinhos que fizeram a fortuna da Cidade, e esta correspondeu construindo a linha ferroviária do Douro.

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As camadas do Tempo sobrepõem-se na forma de escombros, ruínas, restauros ou na pátina que cobre a pedra, o metal e a madeira. Mais importante ainda, sobrepõem-se nos modos de falar e de viver dos moradores.

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Tudo muda, é inevitável: o perfil recortado no céu, as artes e os ofícios, as vozes e os ditos. Os moradores, principalmente.

Autóctones ou não, o desafio maior de qualquer cidade é mantê-los. Afastando-os, condena-se ao destino de um espaço artificial sem vida, sem carácter ou atmosfera peculiar.

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Entre o céu inconstante e o rio temperamental, entre o oceano intercontinental e o interior profundo, levantou-se a Cidade que se assumiu como cidade do trabalho e do progresso, bastião das liberdades e da autonomia.

Tudo isso, e tudo o mais que fez valer nas artes e ciências nos últimos séculos, só pôde acontecer pelo esforço dos que, permanentemente ou não, aqui assentaram residência.

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É da natureza do tempo progredir por lapsos, avançar em torvelinho, borrando testemunhos do passado ou recriando falsas memórias. O presente abre-se entre o tempo que passou e aquele que está para vir: estreito postigo de curta visibilidade, ainda mais limitada pelas urgências do momento.

Ao olhar atento, a Cidade revela as camadas do Tempo tatuadas na pele. E quem as vê pode cogitar quais fossem os desejos, as necessidades, as violências ou o mero acaso que sujeitou um certo tempo a tal ou tal opção.

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Assim como o rio é o mesmo, apesar das suas águas serem sempre outras, a Cidade cultiva a sua identidade renovando-se. Não tem segredo nisso: são as gentes que cá vivem, venham donde virem, levando a vida à sua maneira na peculiar atmosfera da Cidade.

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