
Quando as ondas provocam o temporal, a noite e o nevoeiro levam as embarcações a arriscar a aproximação à terra, assim brilhe luz no obscuro horizonte.
Em épocas remotas, em terras ainda mais remotas — tempos em que toda a terra que não fosse a natal era terra, senão remota, estranha—, fogueiras ardiam nas praias para atrair os desesperados barcos contra baixios e rochedos onde, fatalmente, se destroçariam e espalhariam a carga no areal.

Para os que pisam terra firme, este é o finis terrae onde todos os passos tropeçam frente ao sol poente. O desejo de atravessar para a outra margem é espicaçado pela sugestão das ilhas de todas as especiarias e outras delícias.
Mas a sabedoria das gentes que habitam à beira-mar avisa: o que o mar traz, o mar leva…
Sedia-m’ eu na ermida de San Simión/ e cercaron-mi-as ondas que grandes son./ Eu atendend´o meu amigu’! E verrá? / (…) E cercaron-mi-as ondas do alto mar:/ non ei barqueiro ne sei remar./ Eu atendend´o meu amigu’! E verrá? / Non ei i barqueiro nen remador: / morrerei eu, fremosa, no mar maior./ Eu atendend´o meu amigu’! E verrá? / (…) (‘Sedia-m’eu na ermida de San Simión’, de Mendinho, sec.XIII)

O Litoral é anfíbio, mutante, de limites imprecisos, ilimitados horizontes… conforme se chegue por mar ou por terra, permanece a questão: que cidade é esta onde eu vim parar?
Nem sempre viajar foi uma forma de lazer: a necessidade e a oportunidade, quando não a própria desdita, levam a cruzar mares e continentes, seguindo rotas miríficas ou os caminhos do exílio e da servidão.

Quem chega do mar é fascinado pelas cidades de perfil insólito, reputação incerta, multidões agitadas por afazeres invariáveis. Talvez saiba ao que vem, ao que busca, com quem se relacionar, e tudo o mais o que rege a cartilha… mas se quiser ir um pouco mais além do óbvio, terá de dobrar as esquinas do imprevisto.
Mais do que noutros tempos, todas as informações, todas as imagens, todas as dicas, todos os contactos, estão disponíveis ainda antes de partir. Ao chegar, basta deixar-se guiar e levar pelas ideias feitas embalagem, prontas-a-servir.

Ou deixar-se surpreender por distintos enquadramentos, outra realidade iluminada por outra luz, jogos entre uma cidade variável e a porosidade dos espaços.
Para isso terá de dar o passo para além das imagens e rotinas do turista de todos os tempos, menos ansioso em conhecer do que em reconhecer.

Já os que chegam por terra experimentam o fascínio do Limite para além do qual outros mundos são possíveis. A cidade permanece uma incógnita e um desafio, tanto mais perturbantes sendo ela limitada pelo oceano, pelo grande rio e pela terra-que-finda: uma ilha flutuante, consoante as manhãs de nevoeiro e as noites sem lua. Ou assim julgam adivinhar aqueles que se regem pelas marés ou pelo cantar das aves.
Arranhando a superfície, um além aqui e agora revela-se a quem se deixe perder por meandros e recantos.

A longa tradição das narrativas de viagens alerta-nos haver cidades que são o porto de partida para maiores destinos, enquanto outras são a derradeira etapa duma extensa jornada. O nómada de fim-de-semana, ou em gozo de férias do calendário laboral, poderá ter alguma dificuldade em entender o que seja partir sem certeza —ou desejo— de regresso.
Menos sabido, por ser só aludido em referências vagas ou extremadas paixões, é que há quem regresse, sim, mas completamente alterado. E quem desapareça no dédalo das ruelas e das emoções desencontradas.
Há quem diga que estas coisas dependem de cada um. Outra forma de dizer que quem parte, parte à busca de um destino.

Porém, há cidades que só se desvelam a quem por elas deambule sem horas, nem destino: noctívagos ansiosos pelo amanhecer, solitários ciosos de algo com que partilhar com alguém, turistas que se descobrem salteadores de tumbas, amantes subitamente perdidos em plena felicidade.

Uma cidade assim não se deixa expor pelas imagens do rio que a abre ao meio, nem se revela pela frente marítima. É-lhe (quase) indiferente, até, o que dela se possa dizer por assentar num país que leva o seu nome.
Sua atmosfera, seus edifícios, suas gentes, têm tudo a ver com o rio, com o mar e com a terra: isso, de ser tão sabido e glosado, já pouco diz se não se acrescentar a luz oriunda do céu que a cobre. Céu escuro, tenebroso, chuvoso, porque demasiado a norte…
Só com a indústria turística dos inícios do sec.XXI começaram a descobrir qualidades inexistentes numa cidade que não é formatada pelo lugar-comum. Muito menos se forem aquelas com que se adjectivam os destinos de férias.

Outrora, viajar por cidades imaginárias era uma forma tão arriscada, quanto proveitosa, de fazer fortuna e descobrir novos mundos. Todo o oposto das cidades de fantasia que arrebanham turistas na ilusão da novidade ou da partilha de um fictício património comum.
A fortuna desta cidade fez-se graças à ligação ao rio. Adivinhará o viajante quantos mortos arrastou o rio até ao mar? Rio que aqui mesmo devorou vidas, arruinou casas e destroçou navios…
E saberá o viajante que a luz da cidade chega com a chuva trazida pelos ventos oceânicos, carregando o céu de nuvens? As quais, entrando terra adentro até ao Interior Profundo, alimentarão este mesmo rio? Nuvens pesadas e sombrias como o granito das fundações e dos prédios da Cidade Antiga.

Numa cidade assim os contrastes podem ser óbvios ou, pelo contrário, estarem esbatidos. Tudo depende da peculiar luz, já que o Sol, não sendo um intruso, não é propriamente da casa. Também por isso, sua vinda sempre foi bem recebida, sua presença apreciada.
Pouco dados a se exibirem, os moradores parecem indiferentes a quem passa. Ou talvez seja esse o seu modo de darem importância ao que lhes interessa. Ou, então, é uma de tantas maneiras de levar a vida.

Tal como o céu, a luz variável dos edifícios e ruas desmente os estereótipos da cidade triste ou de vida festiva. Quando se fala em contrastes, nem sempre há que pensar em opostos: aqui houve uma prisão, e nela um condenado recebeu a visita do rei; ali há uma igreja monumental, esplendorosa, onde o granito exibe leveza, exprime movimento e marca, como lhe é próprio, o perfil da cidade; algures se ocultam ornamentos de culto da extinta judiaria e panos da muralha que defendia a cidade.
Conforme as cidades se vão desvelando, o viajante não escapa ileso: se não altera a sensibilidade e a experiência de vida, talvez experimente um sentimento reforçado de felicidade, mesmo que fugaz.
E depois, claro, há a imensa nostalgia…

O viajante que acompanha as luas e aproveita as marés, aquele que presume conhecer os ventos e os pontos cardiais, esse que sabe haver horas e lugares propícios a encontros, deixa-se ficar pelas ruas estreitas onde surge sempre alguém carregado de anos disposto a partilhar um dito, uma estória, uma pérola de sabedoria.
Nos antigos relatos, à janela duma casa numa qualquer cidade imaginária, também podia surgir uma mulher carregada de sedução e beleza. Ao viajante cumpre decidir até quão longe está disposto a ir…

Nem cidade de fantasia, nem cidade-museu, a cidade que surge na estreita faixa litoral onde termina o continente e começa o oceano (ou vice-versa) desafia o olhar e o entendimento de quem se apressa a ‘descobrir’ o que já conhece pelas listagens dos ’10 sítios a visitar’ ou pelos roteiros que explicam ‘tudo’ o que há a conhecer em dois, três dias.

Além do mar, do rio e da terra, não se esqueça o viajante do céu que faz desta cidade uma cidade variável.
E, sim!, conseguindo perder-se, será visto acompanhando o grande rio até ao Interior Profundo; seguindo o mar mais para norte, cruzando estuários e rias; ou palmilhando os caminhos do País da Morrinha.
Voltará alguma vez ao que foi? …a quem ele foi até então? Não há memória de quem tenha regressado para contar.

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