Douramente   1 comment

amendoeira

Ao amanhecerem flores exuberantes e olorosas em dias de azul em pleno Inverno, seremos tão ingénuos para acreditar na promessa de Primavera? Os mais pragmáticos cantarão loas ao milagre da natureza, fruto do esforço humano.

Estas são terras semeadas de equívocos: ao viajante que palmilhe as encostas pedregosas não escapará o jeito de sedução com que as montanhas travam a marcha do rio até ao mar.

O Douro é rio de variados Douros, tão diferentes entre si como a noite para o dia. Todavia, não é o rio, mas são as margens que se contorcem: por onde passe, elas estreitam-no na ilusão de o conter.

foz do tedo

Do Douro se pode dizer o que o poeta-pastor disse do rio da sua terra: ‘quem está ao pé dele está só ao pé dele’. Este não é rio para sonhar, alimentar romances ou construir epopeias.

E de todos os rios, é o menos subtil: se o Douro cativa, o defeito está em quem se deixa encantar.

Falando de outro grande rio, aquele pastor de rebanhos e mestre-poeta também afirmou ‘que toda a gente sabe’ donde ele desce e onde entra no mar.

Os que dizem que o Douro nasce-em-Espanha-desagua-no-Atlântico, enganam-se: repetem o ‘que toda a gente sabe’ e, se bem que não seja mentira, não podem estar mais longe da verdade.

barca dalva

Quem vagueia pelo Interior Profundo, atraído pela madrugada amena de Verão, será surpreendido com a atmosfera densa que se acumula ao longo do dia. Há um ar que chega do centro da Península, de terras a maior altitude e mais expostas à tormenta arrastada pelos Grandes Ventos.

 Se o caminhante desce até ao rio procurando alívio, bem pode se desenganar: o Douro também não é rio de águas amenas.

Por todo o Doiro a trovoada passara como um furacão. Descarregou o seu fogo e os seus brados por vales e montes, e, depois, uma chuva torrencial, seguida de pedra, varreu tudo. Dos altos desciam torrentes tumultuosas, que escavavam socalcos, aluíam paredes, arrancavam cepas, e deixavam atrás de si, escancaradas, as entranhas da terra. O vento, que empurrava as bátegas, colaborava activamente na destruição. E por fim a saraiva acabou a obra sinistra. (in Vindima de Miguel Torga)

Vendo-o assim, largo e tranquilo junto à fronteira de antigos reinos que não mais existem, lembrar-se-á o viajante que o Douro vem dum interior ainda mais profundo? E que para aqui chegar desceu mais de dois mil metros?

 

neve douro

Muito se fala do ‘calor no Douro’, como se falassem do rio. Na verdade, as terras por onde passa estão no Interior Profundo, e só no trecho final são abençoadas pela brisa atlântica.

As nascentes do Douro alimentam-se de neve boa parte do ano e, ao longo de todo o seu curso, as montanhas podem estar mais ou menos distantes, mas sempre viradas ao rio. Nas entranhas dessas montanhas e serranias, as águas do degelo vão acumulando frias e escuras, até romperem à superfície, correndo, saltando, fluindo para o Douro.

‘E para onde corre o Douro?’ interroga-se o viajante cansado, procurando alívio para o frio que se lhe entranha nos ossos, ao observar as serras brancas.

¡Oh Duero, tu agua corre/y correrá mientras las nieves blancas/de enero el sol de mayo/haga fluir por hoces y barrancas;/mientras tengan las sierras su turbante/de nieve y de tormenta (in Orillas del Duero de António Machado)

porto antigo

Há pouco mais de meio-século corria sem outros obstáculos do que as margens que o oprimem ou os penedos que teimavam em resistir.

Pagava o preço da liberdade nos meses do Estio, reduzindo-se a um fio d’água entre areais dourados e pedregosos, mas quem morava frente ao rio, quem dele tirava sustento e nele navegava, não facilitava, nem baixava a guarda. O Douro é temperamental: excessivo na generosidade, como na fúria.

Os mais versados em figuras de fino recorte literário falavam dele como um animal quimérico: besta de carga que traz as pipas de vinho sobre o lombo, serpente que se contorce quando avança, monstro devorador de homens.

Não consta que nele tenham alguma vez passado perto, quanto mais habitado, ninfas como aquelas que em tempos houve no Tejo e no Mondego.

E os homens das suas margens aprenderam este sentido de luta. Construíram seus barcos e ofereceram batalha ao rio enlouquecido e raivoso no torvelinho das suas águas traiçoeiras. (in Porto Manso de Alves Redol)

berlanga2

Em tempos remotos foi fronteira, cicatriz aberta e palpitante, obrigando exércitos conquistadores e povos em transumância a procurar outras vias, outros destinos.

Vetustos pergaminhos atestam que o vale de quase mil quilómetros tornou-se um deserto por força de guerras que duraram séculos. Se assim foi, o que não é certo, não impediu que o rio se tornasse a grande via por onde circulam pessoas, mercadorias e o peculiar tesouro que só nas suas margens se encontra.

A relação entre o Grande Rio do Norte e os povos ribeirinhos alterna entre a paz e a guerra: quem aí vive sente-se protegido, e destas terras faz vida, mas não dorme descansado quando as águas do rio, lá embaixo, engrossam e galgam as margens.

 Nesse Inverno, de tanto chover, as estradas ficaram esbeiçadas. O rio levou pelo pé as vinhas dos nateiros. (in Milagre de João de Araújo Correia)

pontecomboio

Sobre o Douro existe uma lenda negra, que o Douro não renega e tem brio em manter viva.

O viajante, ao cruzar com os moradores à beira-rio, nem precisa de os ouvir para perceber como guardam distância das águas. Como já o tinham feito os engenheiros da linha férrea, há mais de cem anos.

E o primeiro povo que aqui resolveu plantar a vinha. Tanto, tanto tempo atrás que nem há memória qual fosse.

Não há Estio que o sangre, nem obstáculo que o demova, quando o Douro irrompe colérico arrastando os rios, ribeiras e cascatas afluentes. Tanta urgência e fúria, se respeitarmos a simbologia animal, é a do macho no cio.

arriba

Quem abandone a viatura à beira da estrada, preparado para pisar terrenos escorregadios e graníticos, poderá ter um vislumbre da verdadeira natureza do rio selvagem, irascível, capaz de se metamorfosear ao longo das muitas centenas de quilómetros que percorre, até irromper no Oceano confiando-lhe, tantas vezes, os corpos dos desgraçados que não conseguiram fugir ao tumulto das águas cegas.

Granito‘?! Sim, quem sua e sangra arriba abaixo, arriba acima, não esquecerá jamais a lição que qualquer navegante do Douro conhecia para mal dos seus pecados: este rio, famoso pelas vinhas em solo de xisto, tem garras e presas de animal mitológico, feitas do mais duro e maciço granito.

É nesses trechos, que irrompem subitamente do nível das águas subindo para as alturas, estreitando violentamente o leito, que o rio revela a sombra inquietante que o acompanha da nascente à foz.

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Gravada na memória dos navegantes do Douro estão os barcos arrastados pelos cachões, essas temíveis quedas d’água que o turista ocasional deixou de ver após a construção das barragens.

Entre todos, o mais célebre era o cachão da Valeira com sua altura até dez metros. Para o arrasar dispararam-se mais de quatro mil tiros numa obra de engenharia que foi autêntica campanha de guerra contra o rio.

E nem assim o famigerado cachão deixou de cobrar vidas pelo direito de passagem, como o episódio da morte de um ilustre barão inglês claramente atesta, menos de cem anos depois de declarada a ‘vitória’ sobre o inimigo, celebrada com lápide votiva.

O rio, já foi aqui dito, ilude quem o vê nos dias de Verão e a todos os que acreditam na força da engenharia para domesticar o génio fluvial.

Há quem jure que, debaixo das águas adormecidas, permanecem intactos os cachões de outrora, prontos a sugar o incauto que se deixe apanhar pelos poços e turbilhões.

Pior: sua presença inquietante e turva possui encanto. Derrubando pontes ou invadindo ruas e casas das povoações ribeirinhas, o rio ainda tem o dom involuntário de atrair espíritos melancólicos ou vidas desgraçadas.

rabelo

Ao viajante que navegue pelas águas do Douro, nos dias de hoje, ainda são visíveis os vestígios de pesqueiros submersos, memórias de locais de travessia e, principalmente, os sinais da antiga frota ribeirinha. Neste rio sempre navegaram embarcações para a pesca do sável ou da lampreia, para carregar tudo o que se pudesse vender noutras paragens ou para levar gente duma margem à outra.

Não há maior testemunho dessas artes náuticas do que o barco rabelo, com seu desenho e suas técnicas singulares, misto dos saberes do Atlântico Norte com os do Mediterrâneo Ocidental. Porque todo o engenho é pouco, quando se trata de navegar um rio imprevisível e enérgico.

Babado de espuma nas galerias, onde a morte espreita e os cachopos aguçados são punhais a desventrar barcos; manso nos poços onde os remos e as espadelas gemem uma melopeia triste, que só os marinheiros os entendem. (in Porto Manso de Alves Redol)

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Se até eremitas e homens santos de antanho fugiam das suas margens, procurando refúgio, consolo e solidão nas margens dalgum afluente, rio ou ribeira de modesto porte e temperamento amável.

Mesmo que, para isso, tivessem de se embrenhar em locais ermos e selvagens, onde os densos bosques disputavam terreno às escarpas, e feras de duas ou quatro patas rondavam casas e lugares santos depois do sol-pôr.

Deles veio o incremento ao cultivo da vinha, por dever do ofício da Missa e pelo culto a Baco, dando origem a grandes mosteiros e a maiores bebedeiras. A vida no Douro foi sempre dura e solitária.

Mouras

Não há memória de ninfas, náiades ou nereidas, é certo.

Contudo, nas encostas dos tesouros ocultos sob a terra ou brilhando ao Sol, outros moradores vivem aqui desde tempos imemoriais, visíveis a quem tenha olhos para manhãs de névoa, tardes de morrinha, noites de luar.

Perto do rio, o nevoeiro cerrado e as orvalhadas envolvem e humedecem o incauto caminhante perdido fora d’horas. A peculiar atmosfera, transpirada no abraço da terra ao rio, é que não suscita dúvidas a qualquer animal de sangue quente.

Em algum bosque, junto a uma ribeira ou sob grande penedo, o viajante arriscará a encontrar-se com raparigas penteando longos cabelos ou tecendo fios d’ouro, mouras encantadas, serpente enormes que se transfiguram em belas mulheres.

Lendas, estórias antigas, crenças…como é possível alimentar fantasias assim? perguntam as pessoas bem formadas sem desviar os olhos dum écran de televisão, de computador ou de telemóvel.

Para esses, o Douro é paisagem.

moolighthorses

Em certos vales dos rios tributários do Douro, um povo de caçadores soube gravar na memória do xisto seus anseios, ecos que nos chegam de um mundo desaparecido há milhares de anos.

Deixaram imensa obra, tesouro incalculável de arte, sensibilidade e beleza, legado aos seus descendentes do sec.XXI. Tal como o vinho que dá fama ao Douro, esta é uma arte que exige tempo, apreço e cautelas a quem a queira conhecer.

Talvez na sua grande maioria, os beneficiários de tamanha herança retribuíram tentando afogar as gravuras e levantar, em seu lugar, monumentos de betão que desafiam o bom senso e a noção das prioridades.

No vale do rio Côa prevaleceu uma visão de futuro que valoriza o passado, já nos vales do Sabor e do Tua valoriza-se o presente de uns, vendendo ilusões sobre o futuro de todos.

A indiferença para com o passado é sintoma de cegueira. 

valeira

Todo o viajante faz e refaz o caminho três vezes, pelo menos: antecipando o que vai conhecer; indo aos locais; revisitando, mais tarde, as memórias, as anotações, as imagens, quiçá sonhando com um sorriso, um abraço, uma presença agora longínqua, mas indelével.

Nele permanecerá viva a contradição do desejo pelo espaço original, primevo, selvagem e a admiração pelo labor humano, ao longo dos milénios, para acomodar o mundo natural a seu modo e conveniência. Procurar o equilíbrio entre o bom e o óptimo é um acto de prudência e bom senso; sem esquecer que, para alguns, quanto pior, melhor.

Alimentando algum sentimento de culpa, o viajante reconhece o benefício da estrada que o aproxima ao rio, das barragens que fazem do Douro um leito navegável ao longo de centenas de quilómetros e garantem a energia para o funcionamento da parafernália de registo e transmissão de dados que já não prescinde e traz sempre consigo.

Mas nem por isso se esquece que as barragens hidroeléctricas, que interrompem o livre curso do rio no terço final da viagem rumo ao Oceano, não conseguem conter as águas torrenciais quando os outros rios lhe prestam o tributo da neve e da chuva caídas nas serranias, planaltos e vales.

O Douro não foi domesticado, muito menos vencido: sua aparente indolência revela indiferença.

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Talvez o testemunho e o interesse dos que vêm de longe para apreciar o vale do Douro, tanto pelo que tem de natural, como de antigo, ajude a entender verdades simples.

Aparentemente, a defesa pela qualidade no cultivo das vinhas e pela elaboração dos vinhos só foi efectiva quando gente de outras terras se juntaram aos que cá pugnavam pelo mesmo.

Tal como os nossos ancestrais das gravuras na pedra de xisto, os antepassados das vinhas em socalcos deixaram-nos um legado. ‘E nós?‘ angustia-se o caminhante diante da ruína do vale do Tua ‘Que legado será o nosso?’

Para o Douro é indiferente, sua paciência mede-se pelo tempo geológico.

(…) desdenhoso, sombrio, masculino -único rio que entra e sai de Portugal a roer pedra-, afoga-se quase a seguir no abismo do mar. A terra do seu nome e do seu amor são as léguas de xisto que dum lado e doutro das margens se levantam em presépio, a encadear o sol que as aquece.(in Vindima de Miguel Torga)

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Se o Douro já foi terra selvagem, sofrendo o ermamento durante os séculos em que foi fronteira, cedo ganhou fama pelos seus produtos e por ser a via natural de transporte do Interior Profundo.

Não só pelas águas, mas também pelas margens onde teima em circular o comboio após todas as severas amputações sofridas ao longo das últimas décadas.

Um outro legado deixado por antepassados oriundos da cidade que nasceu nas duas margens do rio, junto à foz. Homens de negócios, astutos e diligentes, que souberam fazer o difícil: a construção de centenas de quilómetros de linha férrea a ligar o Litoral ao Interior Profundo, sem se deter na fronteira artificial que o rio ignora.

O fácil, que é usufrui-la, tem-se revelado tarefa demasiado árdua para os que vieram a seguir. Assim, o desmantelamento da Linha do Douro e de seus ramais faz-se, paulatinamente, sob o signo do Progresso e da racionalização de dinheiros e recursos.

Felizmente, no rio ainda é viva a memória e o exemplo da Ferreirinha. A ela, nem o Douro a conseguiu arrastar para o fundo.

 

ruina

Nada é mais enganador do que um nome: quando se diz ‘o Douro’, tanto pode se estar a referir ao rio como à antiga região vinícola. Quem navega no rio ou o percorre ao longo das margens, cedo se apercebe do equívoco.

Sem dúvida, há um Douro de vinhas e socalcos, grandes quintas e povoações alcandoradas: é neste território onde o rio inconstante, à míngua de chuva, o solo pobre e o calor tórrido formam uma só paisagem, parecendo afastar qualquer ilusão de riqueza, que a arte e o engenho souberam extrair um famoso vinho.

Não se vê por que maneira este solo é capaz de dar pão e vinho. Mas dá. Nas margens de um rio de oiro, crucificado entre o calor do céu que de cima o bebe e a sede do leito que de baixo o seca, erguem-se os muros do milagre. Em íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio aveza, crescem as cepas como os manjericos às janelas. (in Um Reino Maravilhoso de Miguel Torga)

castelo

Como também há um Douro que corre através dum extenso planalto, por terras não menos ambíguas quanto todas as outras que rodeiam o grande rio: seu solo arenoso, calcário, acumulando camadas de sedimentos macios para oferecer às águas um curso suave e lento, também sustentam os alicerces das antigas muralhas dum território que foi campo de batalha e terra de ninguém.

E que outra coisa seria de esperar dum rio abrupto e violento?

A terra seca, poeirenta, descolorida, não desmerece a fama do Douro: também aqui se venera o triunfo de Baco desde a época romana; também aqui as margens fazem tudo para o reter num abraço.

lagoa negra

Nada é menos evidente do que a nascente do Douro bem demarcada nos mapas, assinalada por placas e claramente visível a quem se dispõe a subir a penedia da serra: o que vê não convence o caminhante que suba da foz até aqui, ciente dos equívocos de que o rio é pródigo.

Mas na Laguna Negra de Urbión, de que se diz não ter fundo e estar ligada ao mar, quem conhece o Douro reconhece-o nas águas sombrias que emergem por entre penhascos.

Dela um poeta relata uma lenda não menos negra, a dos parricidas que nela escondem o corpo do pai para, mais tarde, eles próprios nela mesmo se afogarem como alívio do peso da culpa.

la Laguna Negra,/agua transparente y muda/que enorme muro de piedra,/
donde los buitres anidan/y el eco duerme, rodea;/agua clara donde beben
las águilas de la sierra,/donde el jabalí del monte/y el ciervo y el corzo abrevan;/agua pura y silenciosa/que copia cosas eternas;/agua impasible que guarda/en su seno las estrelas

(in La tierra de Alvargonzález de António Machado)

 

Esta é uma estória de família, como convém a uma lagoa. O Douro, esse, traz muitas outras estórias.

naufragio

Entre tantas mortes nas águas revoltas, nenhuma inspira o terror e atinge a dimensão daquele dia em que um povo em pânico no dédalo de ruas da cidade antiga, entrou de supetão pela precária ponte de barcas e esta partiu-se, arrastando-os a todos para o fundo insondável do Douro.

A multidão entulhou as barcas: o peso quebrou as entenas estrondosamente; as fauces do abismo engoliram massas compactas, jorros de centenares de corpos, famílias vinculadas no derradeiro abraço. Se da aglomeração de gritos pôde ouvir-se distinto um rugido inimitável, esse rugido foi de João Antunes da Mora. Morrera um grande maroto; mas a espécie não se perdeu. (in Onde está a felicidade? de Camilo Castelo Branco)

foz

O Douro não desagua no Atlântico, como ingenuamente o viajante julga ver ao sentar-se no extenso areal do Cabedelo, entre o rio e o mar. Não está ali a famosa barra do Douro? A tal onde se afundaram tantos navios com seus passageiros e tripulantes?

Não é propriamente um segredo, mas mais facilmente conhecem a verdade os habitantes da beira-mar do que os da beira-rio: o Douro é um rio que entra no Oceano e não se detém aí, muito menos se dilui no imenso mar. A prova está nos corpos dos infelizes tragados pelo Douro e que o rio devolve à terra lá para as praias do Mar Cantábrico, entre as Rias Altas Galegas e o Golfo da Biscaia.

Para onde segue depois, pode o viajante imaginar, observando as brumas que chegam do Atlântico, sopradas pelo vento do norte. Foi daqui, da região entre o Douro e o Atlântico que o rei Breogán terá avistado uma terra verde de rara beleza. Daí, anos depois, a migração até à ilha onde viviam os ‘Tuatha Dé Danann’.

Despérta do teu sono,/Fogar de Breogán./Os boos e generosos,/A nosa voz entenden;/E con arroubo atenden,/O noso rouco son;

(in Os Pinos de Eduardo Pondal)

canhão2

O granito está na sua origem, o granito acompanha o curso do rio, e ambos entram juntos mar adentro. Da foz à nascente, onde aparece o granito surgem perigos para a navegação, para a vida ou para a paz de espírito de quem não guarda a distância segura.

A história do rio vai muito além do que a memória dos Homens alguma vez alcançará.

canhão do douro

A verdade é que o rio já corria para o mar antes de se tornar o Douro.

Mas a sua acção erosiva ‘para trás’, remontando para Este e para as montanhas do Interior Profundo, foi ao encontro da região onde estavam retidas as águas daquela que viria a ser, depois, a bacia hidrográfica do Douro. Ao abrir-lhes passagem para o Oceano, criou o Grande Rio.

Este é um rio que subiu para a nascente, rompendo caminho pelas mais duras e variadas formações geológicas. 

outono-bardos

É um rio selvagem que desfaz pedra ao longo de todo o seu curso, rompendo passagem através das margens que o estreitam no desejo de sentir o palpitar e o movimento das águas. Os povos que por aqui se foram deixando ficar, seduzidos sabe-se lá por qual quimera de felicidade e fortuna, souberam acomodar-se ao Douro.

E tal como o rio revela a sua faceta mais tranquila nos vales de xisto, ocupando o espaço aberto pelas encostas como quem se confia ao corpo da mulher amada, os Homens renderam-se, nesses mesmos vales, à união do Céu com a Terra, prestando tributo em sangue, suor e vinha.

Daqui resultaram cachos de luz doce e liquida que aprenderam a transformar, por uma série de operações alquímicas, naquilo que a expressão poética mais refinada compara ao ‘néctar dos deuses’.

O viajante sedento e moído de cansaço, observando o Douro do alto da encosta pedregosa, imagina que são os calores da pedra de xisto que fazem o rio transpirar as orvalhadas míticas que fecundam a vide. Numa terra assim, atravessada por um rio como este, tudo o que aconteça só pode ser fruto duma paixão.

As técnicas mudam com o tempo, a paisagem sofre arranjos, desarranjos, em aparente mutação. Porque o rio, o xisto, a secura e o calor permanecem um desafio e interrogação ao viajante, como se a ele seja dado escolher entre o mundo selvagem e o mundo da cultura. Sem trocadilhos, nem ironias, a cultura no Douro é a agricultura.

Se bem que nem sempre foi assim. E algum dia voltará a deixar de ser. Talvez por isso, ou também por isso, o Douro passa com a serenidade de quem sabe que tudo é transitório e só a mudança é permanente.

rede

A via férrea suscita nostalgia aos turistas e àqueles que, tendo nascido naquelas terras, só regressam em dias de festa ou nas férias.

Não têm memória da promessa de progresso que representou, outrora. Por isso não entendem como o abandono e destruição a que tem sido votada é uma traição para toda a região. Mas se cruzassem a pé as pontes do comboio, do trecho abandonado da Linha do Douro ou dos ramais que subiam os vales do Tâmega, do Corgo, do Tua, do Sabor, seriam tomados pelo sentimento de vergonha frente ao absurdo.

Nem saberão, também, que o comboio arruinou o modo de vida dos barqueiros. É verdade: as mais belas histórias do Douro têm sempre uma sombra escura.

Era ofício hereditário, tinha prestígio aos olhos do homem da lavoura, mas, em poucos anos, os barqueiros do Douro viram o ‘cavalo do diabo‘ roubar-lhes o trabalho. Atrás deles, na ruína, seguiram os construtores dos rabelos com seus estaleiros.

Sim, o caminho-de-ferro também suscitou raiva, revolta e miséria. Hoje adormece sob a apatia (quase) geral.

boat-lomba

Mas o viajante não pode deixar de reparar na ironia do destino, quando aprecia o movimento fluvial intenso que promete aumentar a cada ano que passa, graças à fama das belezas do vale do Douro e às hordas de turistas desejosas de as conhecer.

Se hoje são cada vez mais as vozes que reclamam a recuperação das antigas vias ferroviárias, quase exclusivamente se deve ao actual transporte fluvial de turismo. Como se a equívoca harmonia entre as margens do rio e as suas águas fosse, afinal, realidade.

O Douro é um paradoxo que desfia memórias, desafia o presente e deslinda o futuro.

regua

Os antigos moradores do -impropriamente chamado- Alto-Douro sabiam à sua custa tudo isso. Aproveitaram sempre e da melhor maneira o que o rio instável e perigoso tinha para dar, e também o que as encostas de xisto, cobertas por matagais, podiam oferecer, sem nunca deixarem de acreditar que do céu cairia a chuva necessária.

Com o passar dos milénios foram plantando as vinhas, a oliveira e a amêndoa e construindo pesqueiros, portos e estaleiros de barcos, levantando povoações, pontes e estradas.

Quando gente de fora da região, com outros recursos e visão, começaram a perceber o paradoxo do Douro, não duvidaram do muito que havia ainda para fazer. Melhor, ou pior, o que se fez foi para tornar o Alto-Douro naquilo que, desde há séculos, é conhecido por todo o mundo.

vinha

Dizem os de cá que o ano são três meses de Inverno e nove de Inferno, difícil de entender quando se passeia por uma tarde de abril e chuva. Ao olhar menos distraído, o solo pedregoso revela a alquimia do xisto e do sol, transmutando seiva em mosto.

Muito haverá a dizer a este respeito, porém, o viajante solitário que sobe e desce socalcos de vinha esforça-se por imaginar a cepa dos homens e das mulheres que, ao longo dos séculos, trouxeram a estas terras o suor e engenho sem os quais os milagres não acontecem.

De fraguedos abruptos, despenhadeiros mortais e congostas bravias, celtas nativos faziam alcandorados maciços verdejantes, que todo o ano regavam com suor. (in Vindima de Miguel Torga)

factory

O Douro é muito mais do que o Alto-Douro.

Nem a agricultura é a única actividade que se desenvolve nas suas margens. Ao rio é-lhe indiferente o que se pense ou se faça a este respeito, fiel à doutrina do filósofo de Éfeso de que não se pode atravessar o mesmo rio duas vezes.

Com esperança e algum cepticismo, o viajante que acompanhe o Douro em toda a sua extensão, incluindo os trechos dos seus afluentes que são ramos do mesmo rio, poderá crer que tudo aquilo que se faça, ou desfaça, depende da vontade e da vigilância das populações ribeirinhas.

Infelizmente, essas populações têm um vínculo ténue com o rio, ignorando até que fazem parte desse imenso território que é a bacia hidrográfica do Douro.

Como se tivessem maior promessa de riqueza e bem-estar do que esta: a de viverem aqui.

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Se recuperarem a ligação ao rio, nem que seja como espaço de lazer, é natural que passem a perceber o que os seus antepassados já haviam entendido, milhares de anos atrás: o Douro é um modo de vida, via aberta entre o Interior Profundo e o Mundo, espaço variável, desafio permanente.

Como se o rio desse o exemplo ao contar-nos a história das suas origens: transformando-se, adaptando-se, reagindo, procurando o caminho para a nascente, donde vai buscar a força, sem deixar de seguir para o imenso oceano e prosseguir viagem incógnito, quase sem deixar rastro.

E na força da sua corrente transoceânica, o Douro levou o comércio dos produtos do Interior Profundo e os mercadores do Litoral ao Nordeste Atlântico primeiro, depois ao Atlântico Sul, mais tarde a todo o Mundo.

duero

Tanto se pode dizer Douro, como Duero ou Doiro, tal como suas margens podem ser tão estreitas que em meia dúzia de passos se vai duma à outra, ou tão largas que são necessários prodígios de engenharia para construir uma ponte.

Quem o vê absurdamente estreito na Ribera del Duero, sulcando lentamente o planalto, rodeado de terras claras que parecem se desfazer sob as passadas do viajante, como poderá imaginar o prodígio das Arribas onde desce centenas de metros em altitude, abrindo passagem entre rochas descomunais?

Já foi dito aqui: o rio é sempre o mesmo, o que varia são as suas margens e o modo de sedução como tentam detê-lo na sua viagem para as águas salgadas e atlânticas.

foz do corgo

Haverá nele um sopro poético? O viajante já está alerta, nesta fase da viagem, para todos os equívocos que o Douro suscita.

Em Janeiro, como em Agosto, o luar alucina suas águas levando quem delas se aproxime para outras paragens, outro tempo. Talvez, até, para outras facetas de si mesmo, que o próprio só suspeita…ou nem isso.

Mas essa é a magia da Lua quando brilha nas águas dum rio ou duma lagoa.

Porém, pelo Douro há magia nas noites de São João.

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Em mais nenhum lado se celebram os ritos são-joaninos e se reverencia o rio como na cidade de ambas as margens da foz do Douro.

O rio estreitou as margens num abraço, dando origem à cidade unida pelas águas e que leva o nome que tem por lhe ser de tudo devedora: pelo Douro, ligou-se ao Interior Profundo; através do Douro, abriram-se-lhe as vias marítimas para todo o Mundo.

O viajante à deriva que chegue à Cidade, encontra aqui um porto de abrigo. E pretexto para novas viagens sem retorno.

E cedo descobrirá que entre o Douro e a Cidade há uma relação dramática.

Mas essa é toda uma outra história.

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