porto de rio   1 comment

Na deriva dos passos perdidos, a cidade velha parece ter o sentido fixo nos poderes emanados do Céu como se algo alguém?, altíssimo e eterno, marcasse o ritmo e desse sentido às atribulações que se atravessam no caminho.

Porém, muitas foram as vezes que os que cá moravam pegaram em armas contra o poder lá do alto. Não só o céu é sempre outro, conforme a cidade se move em redor do transeunte, como este é transportado para outros horizontes e distintas emoções.

Quando os Romanos chegaram à foz do Douro descobriram uma fronteira entre povos belicosos, mas quando se instalaram fizeram da cidade um porto aberto ao mundo. Nem quando o Império ruiu e chegaram os bárbaros, a cidade perdeu o norte: a geografia pode mais do que a história.

 

 E quando a fronteira do Douro ressurgiu, de algum modo e por algum tempo, a cidade soube conciliar os opostos como o nome da freguesia de Mafamude nos recorda. Aqui não houve despovoamento, estratégico ou não.

O fluir do tempo que marca o compasso dos dias não é senão o próprio fluir das águas deste rio: rio que traça fronteiras e funda a cidade, abrindo-lhe as portas do mundo. Ao turista embalado no vai-e-vem fluvial das embarcações entre as pontes, não lhe ocorre a tragédia da Ponte das Barcas.

Ou sequer imagina a expectativa duma noite toda aguardando pelo subir das águas que entrarão casa adentro.

Pelas estreitas ruas da cidade antiga há memórias das grandes cheias e memória dos mortos que o rio do Tempo leva.

Há memórias frágeis que dependem de gestos quotidianos. E memórias grandiosas que se extinguem por falta de alento.

O Passado virado curiosidade, visita guiada das manhãs de domingo, crónica do jornal local, efeméride sem valor por não merecer a distinção dum dia feriado: o Tempo passado é feito da mesma matéria dos sonhos e dos desejos. A ausência de memória é um problema presente que compromete o Tempo futuro.

Se foi o rio que marcou o destino da cidade, é do céu que lhe vem o temperamento. Obscuro como a sombra e a névoa donde brilha a luz carregada de chuva, fonte das cismas e doenças melancólicas que roem amargamente aqueles que não se atrevem a sair à chuva e ao vento.

Antes do tempo invernoso ser sofrido como uma perda de tempo ou mero contratempo que retarda o regresso e estraga penteados, havia prazeres que só em tardes de chuva ou noites frias se podem gozar. Como o fumegar da conversa diante da chávena de café e a leitura lambareira de poemas. Leitora gulosa encostada ao vidro da janela virada à rua, enquanto se desfaz o verso em chocolate na boca.

Luz crepuscular e iluminação de rua sob chuva miudinha, fazendo de cada loja ou café um porto de abrigo, cais de chegada. Hora de partida para novos encontros e longas conversas breves.

Se bem que nunca se louvassem os dias de frio e chuva, característicos da cidade. Mas quando todas as casas tinham quintal e as mais opulentas rodeavam-se de jardins, quem era indiferente ao cheiro à terra molhada e ao gotejar das folhas das árvores? Não vai assim há tantos anos, lavravam-se quintas e apascentavam rebanhos junto às pontes. Há quem jure existirem, ainda, lavradores anónimos que cultivam hortas no centro da cidade. E quem afirme se ter reencontrado, após dezenas de anos perdido na selva urbana, ao passear entre densos bosques com vista para o rio.

Para quem vagueia na noite na noite antiga, locais ignotos e secretos saberes talvez se desvelem, talvez não…e, se for iluminado por súbita revelação, perde-se irremediavelmente de quem é. Entre o céu e o rio fluem diversos tempos, inúmeros sentidos, verdades tão inconstantes quanto a lua.

Também incerta é a cidade que uns dizem ter sido fundada na margem norte, alguns teimam que na margem sul. E muitos teimam, até, que não é uma cidade, mas duas!…por mais pontes que se ergam a estreitar as margens do rio.

Instável é o rio que tanto tem a fúria do mar em si, como a força diluviana de todos os rios e montes do Interior Profundo. Também o céu sobre a cidade é permanentemente inconstante, deixando-se arrastar pelos ventos e pelo caudal do rio.

Há o granito, é certo: sólido, sombrio e sóbrio. Como não ser tentado a ver nele a súmula das qualidades da cidade? Suportando o casario sobre o rio, sustendo o céu do alto dos pináculos das torres sineiras, sua luz própria jamais ofusca com falsos brilhos. E, supremo ilusionista, encobre defeitos e falsas virtudes.

O caminhante que se perca pela cidade antiga tem de ter olhos de gato para distinguir os sinais espalhados na pedra escura e que interpelam o transeunte acidental à boa maneira délfica: ”Conhece-te a ti mesmo”.

Ou, se calhar, não: antes o incitam a tudo largar e partir. Partir para longe, para parte incerta.

Talvez nem isso, talvez se limitem a atrai-lo a ponto de esmurrar a cabeça na realidade superficial e dura de opacidade, até converter-se num hábito suportável e banal. Como se algum cataclismo tivesse arrasado o casario antigo em nome duma qualquer visão de progresso.

Como se um monólito cinzento e desgraçado fosse jogado em cima da velha sé em nome duma qualquer visão duma qualquer coisa que dizem ser uma qualquer arte, arquitectura, urbanismo ou coisa qualquer assim sem nome qualquer.

Mas não em nome do Vímara, que aqui tem estátua e cavalgadura: ele deu nome à cidade que foi berço dum reino e tomou de presúria a cidade que deu nome a uma nação.

Há quem confunda memória com passado, o presente por adquirido e o futuro como uma incógnita. Não saberão esses que o futuro é plural e divergente, futuros possíveis e todos assentes no esforço colectivo de projectos díspares, complementares e contraditórios? E que nada é mais incerto e mutável do que a memória? A geografia é uma fatalidade: a cidade e rio podem sofrer mudanças, mas não mudam de sítio. Sua união é a sua força e seu destino.

E poderia ser a cidade de outro modo? Entre um céu permanentemente alterado, o rio turbulento, o imenso oceano azul e quase infinito? Se a cidade se fez porto de rio, o rio faz dela ponto de partida: do Interior Profundo, donde o Douro nasce, ao íntimo mar interior de quem se passeia nas suas margens.

One response to “porto de rio

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  1. Tens um poema muito bonito que fala da vida e dos estados de alma que neste post e no poema tem um paralelo com a cidade e o céu:

    na cidade dos passos perdidos

    o tédio ensombra o céu, chovendo

    solitárias

    cansadas pingas

    a vida dia a dia se movendo

    sob a luz duma rotina qualquer

    desanimada

    repisando sonhos

    gaivota perdida dum poiso de inspiração,

    asas que nenhum vento chama mais alto

    inconformada

    bicando o tempo

    porque adormecido o eterno calor

    aceso no peito da curiosidade

    inquietante

    de ser mais-além

    berro rebelde à vida torcida ao avesso

    que urge despertar a cores num movimento

    vibrante

    de vivacidade

    (pedro freire de almeida-inédito)
    Adelaide Pereira

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