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Mesmo para quem não tenha memórias da Cidade e desconheça sua História, como poderá sentir-se tranquilo sob a luz da tarde de Novembro se seus passos o levarem a passar sob as pontes?

Silhuetas de muitas épocas o assombram com agouros incertos. E o rio, luminoso e tranquilo, ilude e atrai. Como hão-de atrair as luzes do fim do dia espelhadas no casario antigo.

A Cidade ancorou-se ao rio nas arribas que lhe garantiram segurança, morada e alimento. E proximidade aos deuses.

Houve tempos que foi fronteira e tempos houve que foi campo de batalhas, mas sempre constante no propósito de ser porto de partidas e de chegadas, cais de sonhos e de fortunas.

Na sua margem virada a norte, onde o Sol ainda é mais ténue e distante, imensas caves foram construídas para guardar a fortuna que chegava do País do Vinho, na Terra Quente.

Do Douro, diz-se.

Não só a Cidade tem origem no rio, como este une ambas as margens abrindo-a ao Oceano e ao Interior Profundo.

Nas margens dum rio assim, a vinha surge nos locais mais improváveis. A Cidade é parte da estória do rio, o contrário já não é verdadeiro.

Esse será o maior drama da sua relação: demasiado rio, rio excessivo.

Mas sua influência benéfica é visível no pormenor das casas, nos arruamentos, nos negócios.

E podia ser de outro modo quando o santo popular da Cidade está ligado às águas e ao vinho?

Se a memória do tempo em que os rabelos desciam o rio até à Cidade está viva, é porque o essencial se mantém.

Por detrás de anódinas fachadas, em ruelas estreitas, como que alheadas do mundo, escondem-se tesouros. Ao caminhante não passa despercebida a presença agressiva do granito em bruto.

É ele que sustém a Cidade, lhe dá a forma, conteúdo e sentido.

Escavadas nas arribas, caves escuras e frias preservam o fruto da união da terra com o sol, riqueza acumulada de saberes, suores e sensualidade ao longo dos séculos.

Sim, os milagres exigem a mão e o desejo do Homem.

Longe do xisto que lhe fez o corpo, sem o sol que lhe dá o brilho, sob o céu frio de Novembro, o tesouro da Cidade envelhece.

Ao contrário de tudo o mais, melhora com o tempo.

Milagre? Mistério? Engenho? Não vale de nada responder sem percorrer antes os caminhos que seguem o rio desde o Interior Profundo.

É na Cidade que o rio entra mar adentro. Mar igualmente caprichoso e enganador.

Se a Cidade muda de perfil com o passar dos anos, o rio nem por isso deixa de ser selvagem, por mais barragens construam para o adormecer.

Quem dele se acerque encontra espaços livres e momentos de perigo, como quando as sereias atraíam os marinheiros e as marinhas saíam das águas para seduzirem cavaleiros.

Um barco abandonado tanto está disponível para partir para todo o lado, como é indício da presença de piratas berberes, contrabandistas de qualquer fé ou de ninguém regressado numa noite de nevoeiro.

Virada ao Oceano e atravessada pelo rio, a Cidade sofre a humidade duma espessa névoa que borra formas e abafa sons, fechando cada um no mundo íntimo das cismas, fantasias, pavores.

Em tempos que já lá vão, os mais afectados escreviam poemas, novelas de amor e perdição. E desses, alguns morreriam a cuspir sangue. Ou mataram-se antes de morrer.

Quem vagueia depois dum dia de chuva não perceberá como se suspendem seus passos na tensão da luz e da cor?

Entre o cinzento do céu e do granito há uma cidade variável que se revela por instantes breves.

Indiferente ao estereotipo da “cidade cinzenta, granítica e triste”, mas cultivando a melancolia característica dos habitantes do país da morrinha, essa terra de marinheiros e labregos que cantam, dançam e versejam de modo incontinente.

País que começa aqui e termina nas rias altas galegas. Ou vice-versa.

A luz e a cor da melancolia, do tempo que passa e não volta, do ciclo das estações onde tudo se repete: não é o rio sempre o mesmo?… contudo, outras e outras são as águas que correm (*).

De estórias de águas passadas é este rio um manancial.

Quando rio e mar se juntam nas marés-vivas ou por dilúvio no Interior Profundo, suas águas transbordam nas ruas da Cidade.

Por toda a Hespanha não há outro rio como este a receber água de tanto ribeiro, vale e serra. No mais pitoresco dos postais do rio falta a lenda negra de todos os mortos que lançou mar afora.

Por temor ao rio a Cidade estendeu-se para o alto até tocar a Lua (fatalidade dum povo de poetas…). Não é por acaso que o dia mais importante da Cidade é toda uma noite.

As casas erguem-se suspensas nos penhascos instáveis que cedem algo de si ao rio, a cada Inverno, levando tudo e todos que se lhes atravessem no caminho.

Aos moradores nunca faltou astúcia e engenho para susterem o movimento, mas a luta é sempre incerta.

A vida não é fácil nas escarpas onde todo o espaço ou é roubado à rocha ou é acrescentado pela adição laboriosa de pedra sobre pedra até levantarem um providencial muro, uma passagem urgente.

Quando sobe pelas casas adentro, o rio proclama uma soberania que os Homens sempre aceitaram de má-vontade.

Porém, as casas destelhadas, esventradas, periclitantes, denunciam mais abandono por parte de moradores e vizinhos do que a fúria das águas.

Até porque continuam a só ter janelas para o curso da vida e da morte que mina suas fundações.

A ferros firmada no mais duro granito, a Cidade ultrapassa os caprichos do rio sem o renegar. Pelas pontes a Cidade estreita-se a si mesma num abraço.

Mas quem passeie por elas que não se iluda ao contemplar de cima o rio. De suas águas, a seu modo luminosas, irrompe também a tensão. Luz abismal que retém o olhar enquanto atrai os passos, ilusão e promessa de passagem para outro lado, quiçá outra vida.

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(*) Heráclito in “Os Filósofos Pré-Socráticos” de Kirk e Raven , ed.Calouste Gulbenkian 1979

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