Ainda que cada vez mais surdos e cegos aos apelos e cores da noite, é difícil ficar indiferente à visão duma lua cheia em campo de neve. Seja por instinto vital ou por atavismo cultural. Ou seja, talvez, por reflexo condicionado às imagens publicitadas dos “resorts de ski”.
Os poetas de outros tempos julgavam ver, por vezes e em noites de neve, rastros pequenos de pés nus. E chegavam a temer pelo regresso da pastorinha que se atrasou no caminho para a aldeia, quiçá surpreendida por besta fera sanguinária. Mas que se pode aprender com um poeta sobre a arte de guardar rebanhos?
Nas noites gélidas, quem se imagina a sair de casa? Contudo, jamais a Lua Cheia apareceu no céu em vão: há sempre janelas que se abrem ao brilho que inunda telhados e acende a neve dos montes. Se a Lua põe os lobos a uivar na serra, o que não fará ao coração selvagem que se descobre preso a uma vida acomodada?
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível para mim. (Álvaro de Campos in A Noite Terrível)
No céu meridiano das terras planas, onde o casario dos povoados teme o sol abrasador, a Lua convida ao convívio ameno na rua. Ou assim era dantes. Mas enganadora é a Lua, sempre pronta a inspirar conspirações e desatinos Ah! as coisas incríveis que eu te contava/ assim misturadas com luas e estrelas/ e a voz vagarosa como o andar da noite/ (…) (as coisas incríveis eu só as contava/ depois de as ouvir do teu corpo, da noite/ e da estrela, por cima dos teus cabelos) (Manuel da Fonseca in Romance do Terceiro Oficial das Finanças).
Nas cidades é difícil ter a percepção da noite, noite estrelada, noite aluada, noite enevoada, noite escura. Outrora, pela noite havia um movimento permanente, só perceptível para quem já se havia recolhido à cama.
O que era, pela manhã se viria a saber. Ou anos depois. Ou nunca se saberia ao certo.
Com a aurora, quem saísse primeiro para os campos e montes podia ser que descobrisse vestígios claros de amores clandestinos ou a fogueira ainda quente de quem ronda a noite sem se deter senão para comer. Ou dava de frente com o corpo morto de alguém. É triste ir pela vida como quem/ regressa e entrar humildemente por engano pela/ morte dentro (Ruy Belo in A mão no arado).
O mundo, vasto e ignoto, à vez sedutor e ameaçador, começava então na curva do horizonte.
No Outono, os dias cada dia mais curtos exigiam que toda a atenção fosse dada aos afazeres da época, não sobrando tempo para maiores cogitações. Ainda que as sombras familiares pudessem acoitar perigos. Mesmo que algum nome andasse na boca do povo. Mas se faltasse algum animal ou alfaia, fruto na árvore ou couve da horta, o lesado movia meio-mundo, perdia a noite e outra ainda, a guardar o que era seu. Sempre uma coisa defronte da outra/ Sempre uma coisa tão inútil como a outra,/ sempre o impossível tão estúpido como o real,/ Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de/ mistério da superfície,/ Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa/ nem outra (Álvaro de Campos in Tabacaria).
Dizia-se que algo havia associado a certas noites, a certas horas. Também a certos lugares. Tinha vezes, porém, quem algo ou alguém houvesse visto, entrevisto ou julgado ver A Prima doidinha por montes andava,/ Á Lua, em vigília!/ Olhai-me, Doutores! há doidos, há lava,/ Na minha Família… (António Nobre in António). Nas aldeias de antanho, velhice e solidão tinham um estatuto muito diferente do de hoje: as mães assustavam os filhos pequenos e renitentes com a velha dum lugar ermo a caminho do rio, sempre gulosa de garotos irrequietos e desobedientes És tentação permanente/à minha beira/Beijos rasos/à flor das bocas/ Húmidas as duas/e as duas loucas/A do corpo mais que a da face/inteira(Maria Teresa Horta in Flor da Boca)
E quando velhas e solitárias se juntavam por qualquer ocasião, então até os homens de barba na cara as receavam.
Que tinham parte com o Demo, sussurravam as outras velhas, recordando outras histórias, outros tempos, em que todas as velhas ainda eram novas e todo o homem presa fácil.
Com o Demo tinham parte Encantos e Mouras que surpreendiam solteiros e casados nas suas andanças solitárias. Vaiamos, irmana, vaiamos dormir/ nas ribas do lago, u eu andar vi/ a las aves meu amigo./ Vaiamos, irmana, vaiamos folgar/ nas ribas do lago, u eu vi andar/ a las aves meu amigo(…) Seu arco na mano a las aves tirar/ e las que cantavam nom-nas quer matar,/ a las aves meu amigo (Fernando Esquio in Vaiamos, irmana, vaiamos dormir)
Umas tinham a guarda dum tesouro real deixado para trás desde o tempo das guerras entre Mouros e Cristãos, outras viviam desde sempre naqueles lugares afastados de tudo. Umas e outras tentavam o mais sério dos homens com falas e promessas.
E a tentação podia alimentar a cobiça na forma dum animal aparentemente sem dono ou irremediavelmente perdido, que se deixava quase, quase, agarrar à primeira tentativa. Mas para o agarrar havia que andar mais um pouco adiante, até quase, quase…e voltar a andar, deixando sempre mais para trás o caminho de casa. Quando era tempo de inverno/ pensaba en donde estarias;/ cando era tempo de sol,/ pensaba en donde andarias./ agora…tan sóio penso,/ meu bem, si me olvidarias! (Rosalía in Vaguedás XVI).
Assim, cumpria marcar o território para delimitar o sagrado do profano, a via para a salvação da outra via. E assinalar os lugares onde se podia pedir auxílio, proteção, alento. Em certos cruzamentos de caminhos recordavam-se aqueles que precisavam da solidariedade do caminhante, ele próprio na primeira etapa duma longa viagem. Numa azinhada escura de arrabalde/ haveis de sepultar-me. Que o meu túmulo/ seja o lugar escuso para encontros (Jorge de Sena in O desejado túmulo).
Porém, quem arrisque andar pela noite ao luar (e pior ainda se houver neve…) acabará por se ver num espelho onde se descobrirá como quem jamais teve coragem de ser: O dúbio mascarado-o mentiroso/ Afinal, que passou na vida incógnito/ O Rei-lua postiço, o falso atónito-/Bem no fundo, o cobarde rigoroso (Mário Sá-Carneiro in Aquele Outro).
Aparentemente, entre o claro e o escuro o caminho a escolher não oferece dúvidas; a tentação pelo lado errado sempre foi mais forte. Mas nesse olhar fugidio-/Pude ver a eternidade/ do beijo que eu não mereço… (António Botto in Canção).
De outro modo, como se poderia entender a insistência dos pregadores em ameaçar o rebanho com os mesmos anátemas?
Tem noites em que a Noite dá à luz a Lua num sortilégio que ilude os animais com a promessa de mais um dia. Há quem a confunda com incêndio distante e terrível, com luzes duma cidade súbita ao dobrar da curva ou algum prodígio voador mas não identificável. Os calondros no campo acachapados/ figuram, aboborando, os meus cuidados/ bubões, já amáveis, duma vida/ nem vitoriosa, nem vencida (O’Neil in Os Calondros).
É mais seguro trancar portas e janelas ao luar fugindo para as ruas iluminadas, para a noite da vida nocturna e animada, refugiar-se do silêncio da noite procurando o consolo da multidão agitada, nem que por interposta televisão. A vida plena tem todo o sangue e o gelo do desejo selvagem e faminto Junto aos ossos em gelo bate uma veia/que sobe, quente; que em silêncio ascende/ e bate na língua:- Eu amo o pão que amadurece/ no fogo.(Herberto Helder in Lugar VII)
O Tempo leva tempo a passar. O que passa, porém, não é o Tempo, mas tudo o que o tempo leva. Tudo e todos. Nem isso devia ser motivo de cisma, nem causar tanto medo que se fuja de o dizer. Afinal, a Lua tem luas que também são outras formas de ser, como o diz velho adágio pelas luas se tiram as marés.
Hoje fala-se da lua cheia e do mar sereno com a mesma facilidade com que se vai beber uns copos à beira-mar entre amigos, nas etapas duma noitada, ao ritmo vibrante que sai das colunas de som algures na viatura, no bar da praia, na praia até! A lua como adereço, o mar como paisagem, a noite como todo um programa.
E, porém… que razões teriam os antigos moradores das velhas povoações à beira-mar para se abeirarem dele com o cuidado de quem teme ser surpreendido e arrastado? Se são as luas que ditam as marés, o crepúsculo é quem anuncia o céu que há-de vir. De todos os cantos do mundo/ amo com um amor mais forte mais profundo/ aquela praia extasiada e nua,/ Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.(Sophia in Mar).
Do mar vem o sustento das famílias que ainda conhecem as artes da pesca, por ele assentaram fortalezas para repelir quem dele fazia vida de rapina. Por ele, e por tudo que dele vem, sempre se ergueram preces de misericórdia, cânticos de exaltação e cantigas de amigo Estando na ermida ant’o altar/ cercarom-mi as ondas que grandes som/ Eu atendend’o o meu amigu’…e verrá? (Mendinho in sedia-meu na ermida de sam simion).
Quando as nuvens se interpõe entre o mar e a Lua, o jogo de sombra e luz começa para fascínio de poetas e caçadores, solitários ou enamorados, crianças perdidas no caminho para casa, vagabundos de sonho em sonho São coisas vindas do mar/ Ou doutra estrela/(…) Pouco/ se demoram. Como a felicidade./ Seguem outra canção, outra bandeira./ Tudo isso os olhos traziam./ Do mar. Ou doutra idade (Eugénio de Andrade in Vinda do Mar).
Nuvens ou névoa. Ou ambas. Tão semelhantes na aparência, tão diferentes no temperamento. As nuvens trazem tempestade, mudança, chuva, demónios que assaltam caminhantes e marinheiros na rota da seda ou das índias, em que nada mais tem sentido sem o sal da vida, sem o macio da pele do corpo amado, sem o ouro dum certo sorriso ou sem o picante dum olhar cúmplice Que não houve gentes que emigrassem dessas revoltas/ vigorosas águas, em pé, com peixe até aos ova-/ rios até às guelras a ponta fenícia da nau cravada/ no fundo/ à conquista daquelas especiarias que eram o sândalo a pimenta/ a aventureira nádega. (Luisa Neto Jorge O Ciclópico Acto).
Mas a névoa são assombrações e fantasmas, incertas formas, desvanecimento, apagando rumo e memória, como se o desespero fosse canção de ninar, como se o desejo não seja fogo. Quando a elas se junta a Noite e a Lua, a roda só ficará completa com a chegada da irmã mais nova, a Morte.
Destas, e doutras, hierofanias, fala a literatura e a tradição oral de todos os tempos, em todos os lugares, fazendo eco das vozes femininas que além-e-aqui-em-mim cada um pode sentir, mas que outras vozes, voz de autoridade, voz sensata, voz alheia, calam mais alto Ó minha pobre mãe!…Não te ergas mais da cova./ Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova…/ dos meus ossos o lume a extinguir-se em breve./Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais,/ Alma da minha mãe…Não andes mais à neve,/ De noite a mendigar às portas dos casais (Camilo Pessanha in Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho).
Entre umas e outras rompe-se o sentido, perde-se o rumo e o ânimo, de ser sempre e de ser mais-além em perpétuo movimento finito. Excepto para aqueles que têm a sorte de escutar a voz da criança eterna e risonha que neles vive. Para esses, a noite é todo um mundo que se desvela. Por que razão que se perceba/ Não há-de ser ela mais verdadeira/ Que tudo quanto os filósofos pensam/ E tudo quanto as religiões ensinam? (Alberto Caeiro in O Guardador de Rebanhos VIII)



















Pingback: noites brancas « Novo Mundo