chegada à Primavera

 

Quem anda pelos velhos caminhos tem encontros inesperados, mas já poucos são os que temem o lobo. Os dias escuros, frios e húmidos são convite ao recolhimento, à reflexão, à melancolia. Ou assim era dantes. Há saberes que convocam os cinco sentidos, há aproximações só possíveis depois dum distanciamento. E a vida é impulso.

  Que no Inverno há promessa de Primavera é um conhecimento que se vai perdendo pelos corredores dos hipermercados, nos campos cobertos de estufas ou nos pavilhões industriais onde se “produz” animais vivos para consumo. A paisagem, natural ou humana,  cede o lugar ao loteamento.

 

Não são as andorinhas que fazem a Primavera e muito menos se deixa manietar o Inverno pelo calendário onde os meses de Verão estão em destaque. Atentas aos sinais do tempo, as andorinhas suportam-lhe os caprichos compondo notas musicais numa pauta imaginária. Para espanto e incompreensão de muita criatura urbana, é o cuco quem anuncia a Primavera. Mas de nada vale sabe-lo, sem o ouvir.

 A luz sombria assusta os mais sensíveis, tal como aborrece os insensíveis: uns e outros suportam mal a tensão dum mundo que não se deixe humanizar. O Inverno, ou a Morte: variações do Medo e do Nada, dirão os mais “entendidos”. Sem a vivência do ciclo das estações do ano, o tempo reduzido a “mau” e “bom”, é a noção do Tempo que se perde.

 

  Numa época em que “a noite” é programa de entretenimento, jogos de luz e cor, espaços de ruído e gente animada, difícil acreditar que hajam lugares depois do sol-posto alumiados por uma luz escura como a noite, onde ecoa o silêncio: moradas de deuses obscuros, habitados por demónios tão familiares que causam estranheza. São aqueles que obsessivamente lhes fogem os que fatalmente se deixam por eles dominar, mas também são cada vez mais os que andam no mundo sem deles terem ideia e tornam-se suas presas fáceis.

 

Antigamente, quando se falava de luz era na escuridão em que se pensava. E luz na escuridão, a maior de todas as luzes: aquela que põe lobos e cães a uivar, assanhando gatos no cio, acendendo paixões juvenis em qualquer idade. Como contraponto, faziam-se fogueiras nas noites de  S.João e em todas as festevidades em que o povo saia à rua noite adentro.

 

 

  Haviam lugares ermos onde morriam homens “de morte matada”, mulheres afogadas em desespero de vida e crianças enregeladas no caminho perdido de casa. O mundo nunca foi um lugar seguro, muito menos no Inverno, ainda menos na noite.

 

 

Tempo e lugares onde os animais ainda falavam, mouras encantadas e santas solitárias davam a mão aos aflitos, enquanto o diabo tentava o incauto e os mortos reclamavam justiça ou pediam a quem passava que lhes valessem na reparação dum grande pecado.

 

 Os povoados protegiam-se desse mundo como podiam, rodeando-se de campos e de muros, ansiosos pela luz do dia e receando as luzes vindas do escuro da noite.

A Lua Cheia não era sossego para quem tivesse haveres ou filhas casadoiras, guardando uns e outras na segurança possível de quatro paredes de pedra.

 

 A Primavera só dava a ilusão da segurança, sossegando as dores e anunciando futuras colheitas, mas todos sabiam que são esses os meses em que a geada mais estragos faz.

 

 Dias de céu limpo em pleno Inverno só agradam à moderna indústria turística, porque um Inverno frio e chuvoso sempre foi a melhor garantia dum ano farto, poços cheios d’água, orvalhadas de S.João.

 

Promessa do amanhecer por que se labutam nos campos meses de penas e canseiras, dando início à colheita almejada. O que para alguns é garantia de futuro, para os viajantes de autoestrada rumo ao Allgarve ou fronteira é paisagem passada.

 

 A luz é que marca a diferença, faça frio ou calor, sol ou chuva. Também os rios davam seus sinais no tempo em que corriam livres até ao mar.

 

Quem vivia à beira-rio sabia que a lampreia e o sável não aguardavam pela Primavera para subirem contra a corrente. E que eram os anos de chuva que arrastavam o peixe rio acima.

 

Durante as horas do sol, a vida no rio como que adormece. Mas de noite saem embarcações para estenderem as redes, como se a luz do dia fosse daninha para as artes da pesca.

 

Há noites que nem todos barcos regressam. Se aparecem depois, aparecem vazios e encalhados num mouchão, senão mesmo virados na água. Tem vezes que são as lampreias quem levam a melhor.

 

Essa é sina do homem do mar por melhor que conheça a luz do céu e os ventos que batem na costa. A aparente alegria com que enfeitam suas embarcações contrasta com o luto pesado de suas familias.

 

Mas essas são outras histórias. Estórias do mar. Aqueles que nunca se atreveram a entrar por ele adentro jamais poderão imaginar como pode ser terrível uma noite de Inverno e, mesmo assim, haver quem saiba e se faça ao mar noite afora.

  

 

Dantes ninguém era tão ingénuo para pensar que era por ser escura e fria que havia perigos na noite. As noites quentes ao luar transtornavam cabeças e corações, desgraçavam o bom nome de honrados pais-de-familia, causavam rixas e zaragatas. A noite sempre foi motivo de ditos de escárnio e conversas de mal-dizer.

 

Até os mais Antigos o sabiam: com a Primavera há forças incontroláveis e geradoras de vida, a quem prestavam culto e tributo. Com afinco e a persistência de milhares de anos, gravaram no xisto suas verdades, seus anseios, assinalando no território a herança que nos legaram. Seus descendentes de hoje retribuem-lhes com desprezo e ressentimento, amesquinhando assim seu próprio futuro.

Na Primavera, pensava-se, a terra adormecida despertava e era como se no ar andassem espíritos para se apoderarem dos corpos de tudo o que se mova

 

 e passados meses havia mais uma boca a alimentar, mais uma criatura a quem vestir. Umas vezes era uma benção, outras imensa vergonha: a vida é contagiosa e não pede licença.

 

A correr bem o ano, as árvores dobram com o peso dos frutos, aliviando a sede ou a fome de quem passa, oferecendo sombra fresca em pleno Agosto,

 

os campos cobrem-se da luz da terra, premiando cada gota de suor pingada na jornada de sol-a-sol. Quando o Inverno é generoso em água e frio, nenhum Verão é tão forte para secar as fontes e espalhar pragas do Egipto.

 

 Iludido com as amenidades do tempo quente, alumiado pela pedra das paredes e pelo verde das ramadas, o ingénuo caminhante perde-se no dédalo da vida sensual

até cruzar fronteiras onde o mais-além são espaços selvagens dum tempo fora do Tempo, mesmo à luz do sol de Verão.

 

 Ganhando distância donde foi, tentando vislumbrar ao longe quem é, descobrindo-se peregrino num caminho que já vai a mais de meio, o caminhante hesita na vertigem da ascensão e queda

 

Também ele, se sofrer a morrinha do Inverno, há-de encontrar nascentes de água fresca e caminhos abertos à paixão de amar a vida. Aí sim! Chegou à Primavera.

~ por pepe em Maio 7, 2009.

Uma Resposta to “chegada à Primavera”

  1. A tomada de consciência, por parte de algumas pessoas, da nossa riqueza interior é algo que tenho a sorte de ir encontrando. Ainda ontem ouvia uma amiga que falava para um grupo de pessoas e sem ter a intenção acabou por dizer algo que neste Post está subentendido:
    A partir de determinada fase da nossa reflexão e conhecimento, sabemos que o importante é aquilo que somos na nossa essência. As coisas apenas materiais perdem a sua aparente importância. Estas são transitórias, passageiras. É assim que as vemos. Quanto mais consciência temos disso, mais se vai revelando em nós “algo maior” – a nossa alegria interior a que eu chamo Amor (que nos torna melhores e aos outros). Esta união entre nosso interior e o nosso exterior acontece no mais profundo de nós, e não é possível acontecer sem passarmos por várias experiências inquietantes.

    É o gosto de reflectir que me leva ao comentário.

    Adelaide Pereira

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