Sortilégio de Inverno

waterglassSob o manto brumoso do Inverno, o frio melancólico da terra alagada, da vida adormecida ou ausente. As hordas inconformadas dos veraneantes anseiam pelo seu fim, só o tolerando em formato postal das “férias na neve” ou na urbanidade da decoração de ruas natalícias. Os Antigos temiam-no, resignados ao ciclo da terra que se recolhe em silêncio e sossego abissais.

 

muddy-water

 

Pelos caminhos dos charcos e das ervas, quem os pisa deixa-se tentar pelo piar solitário de ave que não se desvela: há caminhadas que não têm retorno, seja em que época for. Não é à luz de Janeiro que se recomenda o abandono dos espaços aquecidos e familiares.

 

cabo

Também não é certo se abrirem novos horizontes ao caminhante, nem se tornarem mais suportáveis os limites de seu pequeno mundo Mas há esforços que valem por si, reservando como consolação uma inquietação discreta como ácido corrosivo. Quem se atreva, mesmo do espaço amplo e gelado duma existência sem vagar, consegue atingir o limite onde tudo pode ser contemplado e reavaliado: talvez chegada a 25ª hora, ainda haja tempo e proveito para algo diferente.

 

stranger-in-a-stranger-land

Frequentemente, estes são caminhos de regresso à infância, ao tempo em que os animais falavam, do ar inspirava-se ânimo, o mundo era livre e misterioso. Tanto podem ir aqueles que valorizam o chão que pisam, como os que se perdem com a cabeça no ar, e até esses outros que a enterram sob um monte de obrigações e compromissos. Há sempre um lugar mais a sul para o passarinho aninhado no coração que a nostalgia invernosa fustiga.

 

angmar

Ou, então, os caminhos desafiam as alturas e a força com que aí sopram os ventos. Ao mais familiarizado com chão pedregoso e firme, guia-o uma luz sombria que revela passo-a-passo a trilha ascendente. Tantas vezes na ignorância do que o move, o que vai encontrar não imagina.

 

porta-castelo

Todos os relatos dos viajantes coincidem nisto: há sempre mais, e mais além, por mais longe que cheguem. Momento terrível, esse de decidir se desistem perante nova passagem proibida, demasiado receosos da alternativa duma trilha em redor dos altos muros. O caminho é marcado por sinais, haja olhos e sensibilidade. Os que prosseguem são aqueles que não regressam para contar.

 

tundra-em-chamas

Sem as cores luminosas do Outono, nem o bafo morno e perfumado da Primavera, certamente sem a sombra apaziguadora do Verão, que tem o Inverno para atrair o caminhante para além da promessa do agreste e do inóspito? Atentem-se os sentidos e ouvir-se-ão canções da água que nenhum Verão cantará…

 blue-river

 

…e cansadas as pernas, esgotado o fôlego, surgem alegrias de cor e luz que só um curto dia de finais de Dezembro oferece, longe do circuito das lojas natalícias e das pistas de ski. O Inverno ainda é mais assustador por ter nome de género masculino, mas espírito feminino. E o temperamento das fêmeas sem cria.

 

ermida

Há uma beleza nos bosques, caídas as folhas, só difícil de entender para quem não entenda beleza nos bosques, nem a beleza duma palavra que rime com Teresa ou surpresa. Como há coisas que não se explicam, há que vivê-las e correr perigos. Nas velhas histórias, contadas à lareira nas longas noites de Inverno, quem andasse perdido alegrava-se ao entrever, por entre as ramas do arvoredo, casa solitária bem no meio da floresta. Quase de certeza, aí habitava velha bruxa, espantoso ogre ou coisa ainda mais ruim.

 fog

 

Se andar perdido na floresta é perigoso em qualquer altura do ano, no Inverno só pode ser pior: a névoa fantasmagórica, o dia sombrio e as sombras nocturnas se juntam para acordarem temores antigos, medos infantis, modernas neuroses, na companhia sempre atenta duma memória fraca, instável e parasita.

 

homem-da-casa

Memória nostálgica, casa mirífica duma infância que se recorda feliz e para sempre arruinada: sob o céu cinzento e gélido, sepultado na terra escura e sob mantos de folhas mortas, à mercê das ervas daninhas de culpas imerecidas e de injustiças sofridas nunca esquecidas,

 blonde-angel

 

 jaz quem, outrora, num futuro jamais cumprido, poderia ter sido o caminhante. Alguém que ele mesmo sonhou se tornar um dia e não teve coragem de ser. É próprio da sedução do Inverno atrair inocentemente o incauto ao poço sem fundo da pena-de-si- mesmo.

 

moura-encantada

Possuído pela vertigem dos espaços, o caminhante arrisca-se a tombar nos recônditos onde penam encantos que aguardam vorazmente o beijo da vida ou a vida que os alimente. O sal da vida é um grãozinho de loucura que, onde cai, desperta risos e derruba pedestais: sem esse grãozinho o encanto vira serpente rancorosa, rato de esgoto, cão danado ou vira polícia da xereca da vizinha(*).

 

bridge-over-stormy-waters_edited-1

Que as opções são sempre dúbias: entre cruzar uma velha ponte que liga não-se-sabe-onde a sabe-se-lá-aonde ou a incerteza evidente de se deixar arrastar pela corrente forte dum estado de alma, nunca se saberá o que se perde e o que se ganha ao certo. A luz invernal é, ao seu modo, benfazeja: convida ao recolhimento. Por vezes, nada melhor do que deixar as memórias expostas aos flocos de neve apaziguadores, abafando emoções fora de tempo.

 moonlight1

 

Como o esquecimento, o manto de neve cobre, oculta ou destrói o mundo tal como o conhecíamos, levando a crer que outro mundo é possível. E à luz do luar de Janeiro, quem disso pode ter a mais leve dúvida?

 

campo-de-neve

O nascer do Sol ajuda a reavivar percursos mas quantos se atreverão viajar entre ambos os mundos sem se perderem de quem são, nem perderem a memória do futuro adiado, entre fantasmas, demónios e paixões em carne viva?

 

musgo

Mais cómodo, menos arriscado, quase indolor, é fazer dos desejos pedras lançadas e destinadas a tombarem mais adiante, desaparecendo sob o musgo macio do quotidiano, suportando o líquen parasita da opinião dos outros.

 novo-mundo-boat

 

Como se a seguir ao Inverno não viesse a Primavera, como se não houvessem praias onde se salvam vidas naufragadas…como se as pontes não existissem, algures e a todo o tempo, para se prosseguir mais além.

 

(*) in “O coco do coco” de Guinga e Aldir Blanc, pela voz maravilhosa de Leila Pinheiro

~ por pepe em Janeiro 18, 2009.

Uma Resposta to “Sortilégio de Inverno”

  1. Poesia!
    Cor!
    Flor!
    Canção!
    Natureza!
    Ave!
    Riso!
    Intimo!
    Manhã!
    Sol!
    Lua!
    Noite!
    Amores!
    Paixão!
    Sentimento!
    Ponte!
    Pensamento!
    Tristeza!
    Alegria!
    Sonho!
    Rio!
    Prosa!
    Vida!

    Ao ler “Sortilégio de Inverno”, ia sentindo em mim o sentido das palavras, o encanto da contemplação, a liberdade expressa, vida reflectida entre a saudade e o momento. O humor também o encontrei aqui, porque essencial.
    Tendo eu, lido há muito pouco tempo uns poemas de Rosaliá de Castro, rapidamente eles irrompem da minha memoria e começam a bailar no meu pensamento. O que sinto agora é este:

    “Dicen que no hablen las plantas, ni las fuentes, ni los pájaros,
    ni el onda con sus rumores, ni con su brillo los astros:
    lo dicern, pero no es cierto, pues siempre cuando yo paso
    de mí murmuran y exclaman: – Ahí va la loca, soñando con la eterna primavera de la vida y de los campos,
    y ya bien pronto, bien pronto, tendrá los cabellos canos,
    y ve temblsndo, aterida, que cubre la escarcha el prado.
    - Hay canas en mi cabezam hay en los prados escarcha;
    mas yo prosigo soñando, pobre, incurable sonámbula,
    con la eterna primavera de la vida que se apaga
    y la perenne frescura de los campos y las almas,
    aunque los unos se agosran y aunque las otras se abrasan.

    Astros y fuentes y flores, no murmuréis de mis sueños;
    sin ellos, cómo admiraros, ni cómo vivir sin ellos?”

    Adelaide Pereira

Deixar uma Resposta