miradouro
A luz vaga chega das águas a horas incertas: são dias que podem ser noites em que o abafar dos ruídos alumia as vozes ou realça sua ausência.
Quem desce a rua em direção ao rio arrisca-se a perder o sentido das urgências mais vale fazer amanhã o que pode ser feito hoje para viver o aqui-e-agora-e-sempre. Mistérios que confundem o incauto: “Será da luz filtrado pelo céu? Serão as cores sombrias do casario? Ou será mesmo pela peculiar atmosfera à beira-rio?”
Porque o céu da Cidade aprecia a inconstância dos estados de espírito, aborrece as expectativas do lugar-comum, arrepia a pele dos vagamundos. Pela sua aparição súbita tropeçam na calçada os caminhantes surpreendidos.
A atmosfera densa tanto favorece a melancolia outonal, doença crónica que definha poetas e amarga a reflexão de políticos retirados,
como propicia a euforia são-joanina, essa improvável luxúria que põe em causa as ideias feitas sobre a Cidade.
Porém, a tormenta sombria que escorre pelas águas profundas como que avisando o Sol de que estes não são céus meridionais mancha a fachada das casas viradas ao rio.
O granito impõe silêncio, levando o desentendido a confundir “sobriedade” com “sombrio”. Esta é uma cidade que oculta a exuberância detrás de fachadas soturnas.
O povo que calcorreia as ruas parece agitado, afobado de trabalho, impaciente certamente, talvez irritado.
Porém, tal como o céu sobre a Cidade muda a todo o momento, também os estados de ânimo: há momentos para o reencontro e tempo para deambular pensamentos, para tocar ritmos de quadras em versos de pé-quebrado.
Tem vezes em que a tensão do imprevisto desencadeia zaragatas, solta impropérios escatológicos, revela linhagens bastardas, atira lama à reputação materna. Quem é “de fora” é mirado de alto a baixo, desafiado no olhar e na pose: há momentos para refazer os passos em sentido inverso, procurar outra ruela e seguir adiante.
As vetustas paredes da Catedral recordam tempos belicosos, rivalidades acesas entre a ordem instituída e os poderes fácticos, revoltas e revoluções. Ainda hoje, supõe-se, velhos guardiões zelam pelo respeito da autarcia.
Ao caminhante estranho a tudo isto, a Cidade confunde pela constância do rio, pela volubilidade do céu. Como se o dia e a noite fossem só a alternância do claro-escuro…
Ao anoitecer a Cidade muda sem em nada se alterar, acendendo luzes que servem menos para orientar do que para desviar do caminho recto.
Até começar o jogo das sombras que envolverá o viajante, levando-o a perder-se sem esperança de voltar a reencontrar-se tal qual era: é que apesar da estreiteza das ruas que escondem a Lua, os telhados, beirais e torreões brilham sob sua luz e nenhum gato resiste ao chamado.
Mesmo para quem se refugie entre quatro paredes, a Cidade permanece como uma obsessão que atrai e se mete olhos adentro sem se insinuar, nem se intrometendo.
Se bem que o Sol não seja arredio destas paragens, ao contrário da imagem feita da cidade triste e cinzenta: aqui há cor, vida e luz.
Na verdade, é essa luz uma variação dos contrastes que sobressaltam o visitante desprevenido, receoso das sombras, incomodado pela omnipresença do granito e pela indiferença aparente? dos moradores.
Mas como negar à Cidade o atributo da cor? Como não ver nela a melancolia dos dias cinzentos? Como não perceber a cumplicidade entre o céu e o rio?
Não são as nuvens da mesma água com que o rio rompe a Cidade em duas? O laborioso esforço, a férrea determinação temperada pela vontade em abraçar ambas as margens, esses são atributos do povo discreto que aí habita.
E que jamais foi ingrato para com o rio, mantendo com ele a intimidade possível,
orgulhando-se da sua presença, mas apreciando-o a segura segura? distância.
Nem a memória dos Homens é tão curta que esqueça como este rio devora quem nele caia, principalmente nas horas de maior aflição,
nem suas águas profundas se deixam amansar com preces, votos, muito menos com templos consagrados ao Altíssimo.
Temperamental, caprichoso, vingativo, mas não é verdade que tenha sido por ele que a Cidade se dividisse em duas, pois a Cidade ergueu-se em ambas as margens e dos nomes delas se deu nome a uma nação.
Nem ele se nega à carga posta no lombo largo e forte.
Entre o rio e a Cidade criou-se um traço de união entre o Norte e o Sul
e também entre o Interior Profundo e o Litoral: tornou-se porto de chegada para os que desciam do País Vinhateiro, dando nome ao tesouro alquímico das terras de xisto
e tornou-se porto de partida para os que debandam mar afora na faina,
a mercar ou a navegar para mundos novos.
Outrora, a sua face atlântica parecia abandonada; hoje é notória a avidez pela faixa litoral.
Aqueles que chegam à Cidade por mar não adivinham o que vão encontrar e, quando chegam , cedo se apercebem do prodígio das torres sineiras dominando o horizonte ou o enigma das muralhas ocultas entre as casas.
Ainda mal foram expostos à atmosfera do rio, marcando o casario com luz turva, sombria, em jogo de luz com o céu túrgido, alterado, já se sentem eles mesmos alterados, sombrios e pensativos.
Quem venha do rio e ponha o pé em terra, subindo as ruas que partem do cais, sofre a melancolia das ruas devassadas por janelas viradas para dentro, sob o céu ominoso, guiado pela candeia solitária que não alumia, mas atrai.
Desencontrando-se assim de si mesmo, engolido por vielas, rompendo solas em degraus íngremes, na ânsia dum encontro
ou dum mira douro que dê orientação a este labirinto.
E subindo, subindo cada vez mais, na companhia das escarpas, desconfortável com a extensão dos muros, aferrolhados os portões que negam passagem a improváveis moradas de gente silenciosa e vaga.
Até chegar ao limite vertical onde a Cidade se expõe sem se revelar, desafiando qualquer leitura e toda a comparação. Um vórtex que atrai novamente o incauto em sentido descendente, no sentido do rio, das águas turvas e profundas que é como quem diz “há horas do diabo!” como promessa de apaziguamento, borrando memórias lancinantes e vivências insuportáveis.
Aquele que domina a tontura, resiste à vertigem e mantém-se firme com ambos os pés bem assentes no chão granítico, pode refazer seus passos em sentido contrário, descendo sem pressa e, de passagem, agradecer a algum anjo protector,
a uma simples ave benfazeja ou o que quer que haja que o mantém agarrado ao mundo.







































rompendo solas em degraus íngremes, na ânsia dum encontro
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Por aqui andei e encontrei-me com a cidade, o rio, as cores, a luz e o obscuro, os medos e as valentias. Entrevi as gentes e a História. Foi um mágico deambular.
ana said this on Dezembro 3, 2008 às 2:44 pm |
Que belo presente de Natal (antecipado)… Um presente ímpar para qualquer idade ou sexo o de nos encontarmos com a cidade, deixando que ela nos invada…
Embarquemos, pois, nesta ventura e como bom presente de Natal, levemos os mais pequenos a deixarem-se contagiar pelo rio que reflete o nosso céu deste sempre Porto de abrigo e também a perceberem os perigos de que o rio é palco e que muitas vezes são de tragédia.
Voltarei a escrever sobre este spot (brevemente)
Adelaide Pereira
Adelaide Pereira said this on Dezembro 3, 2008 às 3:02 pm |
Este é um olhar a cidade com “uns olhos uns” como dizia o poeta!…
A Cidade surpreende-nos a cada vez que a buscamos. Compreendo que se temos hábitos de olhar com atenção o detalhe não confundiremos a “sobriedade” com “sombrio”. Como dizes, “Esta é uma cidade que oculta a exuberância detrás de fachadas soturnas”.
Só se poderá ver realmente bem a cidade no seu conjunto se conseguirmos ver os seus pormenores porque Ela é feita disso. São os detalhes que nos dão o conhecimento, que o mesmo é dizer, a compreensão do que vemos. É este olhar de pormenor o que mais conta; porque essencial para uma verdadeira percepção, envolvência e entrusamento com a Cidade -”ao contrário da imagem feita da cidade triste e cinzenta: aqui há cor, vida e luz”.
E esse olhar com tempo faz-nos falta para sentimos a Cidade.
Apreciei particularmente esta tua frase: “Porque o céu da Cidade aprecia a inconstância dos estados de espírito, aborrece as expectativas do lugar-comum”. Deixemo-nos surpreender pela alternancia de luz e de cores, que nos traz o céu. É o sentir que se altera, como diz a canção, se deixarmos que a magia nos invada e alimente a nossa imaginação…
Adelaide Pereira
Adelaide Pereira said this on Dezembro 8, 2008 às 11:03 pm |