o labor da memória

Até o mais familiar dos percursos pode ser amedrontador: basta levantar os olhos e deixar-se surpreender pela luz do céu sempre em mutação. Há fragmentos da cidade que levam o caminhante a questionar-se sobre o tempo que passa, possuído pela nostalgia dum tempo que não é o seu.

Nem a segurança das ideias feitas, seja uma algibeira delas prontas-a-usar, sejam seiscentas dúzias de fórmulas que resumam a variedade do mundo, sossegam quem for apanhado pelo gérmen da inquietação. Será esta a origem do “espanto” dos antigos gregos?

 Poderá o mesmo homem ser besta de carga dos conhecimentos alheios e, simultâneamente, ser navegante quinhentista, salteador de tumbas, condutor da sua vida?

O Tempo impõe um sentido e os Homens tentam marcar-lhe o ritmo, iludindo-se que o espaço construído e onde vivem esteja subordinado ao sentido que dão às coisas, enquadrado num calendário perpétuo onde tudo, e todos, têm o seu lugar.

Se há algum sentido no tempo que passa, é o da finitude: onde está o orgulho de quem assomava a esta janela, chamando de seu tudo quanto a vista abarcasse? Terão estas colunas retorcidas testemunhado algum amor impossível, proibido e condenado? Talvez daqui fosse dada ordem para um combate sem quartel…mas quem, e a quem, contra quem e com que fortuna?

Hoje, podem mais as heras do olvido do que a memória das pedras. 

Há quem não se conforme, contudo, e desenvolva as artes e os saberes para que voltem a ecoar línguas mortas, fazendo regressar os que partiram para sempre, reerguendo das ruínas obra feita e actos falhados.

Quanta da memória colectiva assenta nessa inquietação em saber? De reconstruir, de repor a peça que falta no puzzle?… 

Mesmo, até, quando alguém se lembrara de retirar uma “pedra bonita” do seu original enquadramento, levando-a para longe no desejo pueril de se imortalizar numa parede, criar nome, reputação e fazer história para ser recordada até ao fim dos tempos…

O culto da memória, a veneração pelos tempos antigos, tanto despertou paixões em austeros claustros das serranias inóspitas, como seduziu mais do que um padre-cura zeloso da sua vinha e apreciador da boa-mesa.

Ainda que, aos olhos de hoje, este labor muitas vezes resultasse em lendas douradas e narrativas inverosímeis, foi o sopro dessa paixão que animou outros estudos, outras paixões de maior rigor e autenticidade.

Não será o prazer contemporâneo em divagar pelos povoados com traça historica devedor do trabalho de uns e de outros? É a mesma paixão que mantém, ainda hoje, o velho casario

e reconstitui (de modo fantasioso, quantas vezes!) torreões, ameias e muralhas que não eram mais do que muros abandonados.

Esse prazer, essa paixão, alimentada ao longo dos séculos, não prejudica a beleza dos campos de cerais que agora cobrem antigo terreiro de luta, campo santo de anónimos antepassados, templo obscuro de deuses desconhecidos ou inexpugnável fortaleza rendida à erosão das eras.

Isolados ou em grupos, estes são os novos invasores, peregrinos actuais, acorrendo às cidades onde possam descobrir raízes, referências: o que para uns é arte antiga, para outros é eco remoto. Ou interpelação desconcertante, paixão súbita e fulminante.

Sem que nada disso obste à busca dos arcanos no mundo natural, onde o coaxar das rãs fala da cidade submersa no fundo da lagoa, a casca do velho freixo exibe, ainda, marcas dos chifres de gamo branco e as lavandiscas são disfarce para uma presença feminina e ambígua.

O que marca nosso olhar anacrónico é a simbiose aparente entre o mundo natural e o mundo humano desses tempos. Mesmo quando a lenda conta como D.Sapo não abdicou do direito “à pernada” e obrigava as noivas a passarem a primeira noite de casadas no seu torreão.

Mesmo quando os campos crestados pela geada recordam tempos duros em que a próxima refeição era uma miragem, não havendo sequer certeza da lenha ser suficiente para um Inverno mais longo e rigoroso.

Dum modo ou do outro, ao viajante curioso se abrem as portas da percepção se for bafejado por um grãozinho de loucura e deixar a poesia latejar sem controle, podendo assim descobrir os segredos ocultos em si mesmo.

“Novos mundos, ao mundo irão mostrando.”

~ por pepe em Maio 23, 2008.

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