rio adentro
As águas sempre tiveram um encanto perigoso, iludindo quem passa num jogo de reflexos e transparências. E porque haveriam suas imagens ser menos verdadeiras, porque teria de ser seu fundo mais apaziguador? Tranquilas à superfície, nada dizem da agitação que as move. Ou dizem muito… se calhar, dizem mesmo tudo. Talvez só o digam a quem nelas se afundar…
Quem siga por estas vias entra num mosaico de luz e sombra, mas só se perdem aqueles que não aprenderem a evitar a luz do sol, só se encontram os que desaparecem na penumbra. Aqui, os pássaros cantam para afastar intrusos ou soltam avisos agudos e urgentes, como quem grita Vem gente! De dia, como de noite, o silêncio é santo e senha para aqueles que querem entrar neste mundo
Mais raros e elusivos são aqueles que ainda conhecem os antigos leitos fluviais: ocultos do olhar alheio, manobram, silenciosa e discretamente, a barcaça que os leva. Sem ruído e sem pressa, como convém a quem segue o sável, cobiça a lampreia e aguarda pela enguia. E por temor aos encantos de mouras e marinhas.
À noite é que mais se agitam os trilhos que vão dar às águas. Em ambos sentidos, como muito caçador aprendeu às próprias custas. Ao sol, os penedos grandes que atraem o olhar de quem passa são grandes penedos. Nas noites de luar, revelam-se naquilo que são: castelos esquecidos da memória dos Homens, palácios encantados onde se acoita a Serpe.
Com a madrugada coberta pela geada, reforça-se o silêncio. Mesmo quando o sol nasce e os pássaros vigilantes dão uma nota alegre. Ou não cantasse o rio este estribilho: nada do que é, será/ ninguém, nestas águas, duas vezes banho tomará.
Os Homens não se dão bem com o mundo selvagem e incerto: contra a força da corrente impuseram seu ritmo, contra luas e marés ultrapassaram limites, contra ventos e baixios abriram rotas e canais. Com pequenas embarcações de madeira, movidas a remo ou à vela ou monstros de ferro e aço puxados a cavalos-vapor.
Alterando a fisionomia dos rios, indiferentes à vida que estes abrigam. Mas, tantas vezes, encalhados por excesso de calado, assoreadas as saídas para o mar a ponto de as fechar, na ânsia de domesticar as águas e pô-las a seu serviço. Os espíritos do Tempo e das Águas fazem o resto, cobrindo de ferrugem e limo naves envelhecidas,
velando numa aura romântica as indústrias quase extintas, numa demonstração de que os encantos reaparecem onde menos se espera, esquecidos foram seus nomes. Mais do que um caçador de borboletas, de sonhos ou de lendas, se deixou enfeitiçar por esses horrores mutilados, traídos e abandonados.
Haja vagar, arte e engenho, e gosto pela aventura, um novo mundo sempre nos aguarda mais além.
As margens, despidas de vegetação e utilizadas sem pudor, são abandonadas juntamente com monstros de latão e escória que foram arautos de progresso e tiveram sua época de glória. Praga renitente que sempre reaparece, renovada e daninha para gáudio dos sucateiros, essas aves necrófagas da paisagem actual.
Destruídas raízes, nascentes e ilimitados horizontes, o que fica?
Amodorrados pelas barragens, os rios continuam a ser vias para uma (re-) descoberta, em direcção a tantos horizontes quantos os olhos abarquem. É bem verdade que há turbulência no mais tranquilo dos rios.
As águas perdem transparência e profundidade se perdida a paixão no olhar que as percorre. Como se a alternativa fosse o tempo em que a mudança progredia ao ritmo duma carroça puxada por burro velho, tempo de riqueza tão escassa que, por isso, era reservada para alguns poucos.
Sem paixão não há canto de sereia que arraste os Homens para o mar aberto. Nem barqueiro que nos leve para outra margem.















Ainda que não haja barqueiro, é sempre à outra mergem que queremos chegar!
E metemos pés à água, e esbracejamos, e sentimo-nos aflitos e, às vezes, chegamos lá.
ana said this on Maio 29, 2008 às 2:13 am |
Peter,
Como primeira fotografia de “rio adentro” colocaste uma ponte (curiosamente em Ponte da Barca”. Tenho um sentimento especial sempre que vejo uma ponte; pelo que ela permite: liberdade; conhecimento; união; novas oportunidades e portanto novas emoções.
Gosto de pensar em pontes e ver pontes tanto no sentido realmente fisico do termo como em sentido figurado. Desde que descobri o teu Blog, ele tem sido (tu, aliás) uma ponte que eu quero e preciso de percorrer, porque me traz sempre novos horizontes. E tal como na fotogrtafia conhecemos um dos lados da ponte mas não vemos o outro lado, a outra margem. Esta será sempre uma descoberta, basta deixarmo-nos levar pelas emoções para que seja diferente em cada passagem nossa; distinta para todo aquele que escolha percorrê-la.
O outro lado é uma incerteza, que valerá sempre a pena conhecer e esperar, com tempo, que nos seja revelada para abarcarmos o seu significado e ensinamento, deixando que nos apazigue ao entrarmos na sua sintonia.
“A outra margem” é para mim tal como para ti (como julgo ter percebido) essencial à tua natureza. É uma forma de estar e de sentir. No minimo estar noutro sitio distinto ao que não nos agrada, mesmo, estar. Essencialmente, estar na outra margem, é ver diferente, é sentir diferente, é “Arranhar a Superficie até Sangrarem os Dedos”, é ser paixão em cada poro para que os sentidos captem o máximo possível.
Por favor, continua a escrever.
Adelaide Pereira
Adelaide Pereira said this on Novembro 6, 2008 às 11:36 am |