Luar de Janeiro

Cada lua mais longe para quem o procura, um mundo-outro revela-se ao luar.

Para muitos , estas são noites mudas. E são esses, ironicamente, os que se inquietam na expectativa do ruído após o silêncio. Como são os mesmos que se enervam ao estalarem gravetos por perto e se assustam com o piar agudo ao longe.

Para os noctívagos deste mundo-outro, ao invés, o silêncio é revelador de presenças mudas: a noite reverbera, amplifica, ecoa, abafa e murmura, a todo o tempo, sonoridades tácteis.

Adeus ribeira redonda,

Lá no meio canta a cobra:

Se tu queres e eu quero,

Porque é tanta a demora?(*)

Se for junto aos rios, já se sabe, outros mundos se reúnem àquele que o luar desvela.

Quem viva na montanha tem razões para não ser apanhado fora de casa, assim o Sol se põe.

Nas noites de frio intenso, se a tormenta anda pelo ar e a Lua brilha mesmo assim, a que buscará homem, ou mulher, transviado por estes ermos, sem tecto que o cubra, sem luz que o guie?

Vou-me despedir de vós,

Adeus, sol que te vais;

Deixas-me ficar sozinha

No meio dos pinheirais.(*)

Em todo o lugarejo contam-se histórias de alguém arrastado da cama, ou dos afazeres caseiros, por um chamamento de fora, pelo restolhar, e, ao espreitar pela nesga da porta, se tentar a sair noite adentro.

(…) estando elle testemunha na cama (…) vio hum negro na mesma camara o qual o tomou (…) dizendo lhe anda ca. E elle testemunha lhe dise que nam. E entam o tomou o dito negro as costas e o tirou da camara e o tirou por cima da cerca da orta em camisa e o levou a casa da dita Filipa da Mota e vio estar o marido dormindo e lhe dise o dito negro nom ajas medo que dormindo estaa. E que logo elle testemunha se achou na dita cama com a dita Filipa da Mota e sem lhe fallar a ella nem ella a elle se abraçaram ambos e teve aceso carnal com ella (…)¹

Este cavalo que pasta, cavalo sem dono, será mesmo?! aparece neste mesmo local desde ontem, anteontem, três noites atrás, já vai a Lua alta. Se alguém se aproxima não foge, mas sempre se afasta um pouco mais para longe. Longe de casa, longe do povo…noite fora, noite adentro. Na mira do lucro fácil, condoído pela aflicção duma criatura necessitada, espicaçado pela curiosidade, movido pelo desejo…de noite tudo é diferente do que é de dia.

Outrora, mouros e cristãos se surpreendiam mutuamente em seus castelos, tentando que se entregasse pela calada da noite o que às claras se lhe negava.

-Canta, Mouro, canta, Mouro,

Canta pela tua vida!

-Como cantarei, senhora,

Aqui na prisão metido?

-Vamos, Mouro, vamos, Mouro,

Vamos para a Mouraria!

(…) Dize-me, Mouro, dize-me, Mouro,

Dize-me pela tua vida,

Se me levas por mulher, se me levas por amiga.

-Nem te levo por mulher,

Nem te levo por amiga,

Levo-te por uma escrava,

Escrava de toda a vida.(*)

Pelo breu da noite, bandoleiros saíam a roubar as casas aos lavradores a quem haviam procurado de dia, fingindo mendigar esmolas ou tentando vender o porco surripiado de véspera.

Sete-estrelo rondador,

que rondas a toda a hora,

Recolhe-te, sete estrelo,

 que eu quero rondar agora.(*)

Nas noites sem lua piam aves de mau agouro, ora e sempre. Por isso, as noites de luar sempre foram cantadas, versejadas: noites para amar, noites onde a rês e a pastora perdidas na serra encontram quem lhes valha.

 

Noites em que a morte renasce encarnada em criança pequenina e débil, dormindo, dormindo…

Luar nas nevadas,

Algido e lindo,

Janellas fechadas, Fechadas as portas

E elle fulgindo,

Limpido e lindo,

Como boquinhas de creanças mortas,

Na morte geladas

-E ainda sorrindo…²

Ainda há quem se aventure nas lides nocturnas em esquálida embarcação: com arte e manha monta sua rede, faz do escuro um manto, do silêncio modo do ser, fazendo por ignorar suspiros que a brisa traz e as águas ecoam.

Ó rio, que tanto zôas,

Bem podias ir calado(*)

Até nas noites de Dezembro e Janeiro as águas exalam apelos, atraindo os mais inquietos do calor de suas camas.

Ondas do mar levado,

se vistes meu amado!

E ai Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amigo,

O por que eu sospiro!

E ai Deus, se verrá cedo!³

Nas noites sem Lua, contavam os mais velhos, havia quem rondasse as casas para tormento das casadas com marido ausente e filhos pequenos por criar.

Estando D.Filomena

No seu jardim a fiar,

Passou um triste soldado,

Tratou em o namorar.

-Vem cá tu, ó soldadinho,

Que vens em boa ocasião;

Meu marido não ’stá cá,

’stá na Serra d’Aragão(*)

Ou tirando o descanso a todos quantos guardam os aforros duma vida debaixo da enxerga.

S.Bartolomeu me disse

que me deitasse e dormisse

sem medo da onda

nem do homem da má sombra,

nem do velhaco pesadelo

que tem a mão virada

e a unha revirada.(*)

Se batiam à porta era para pedir pão e consolo,

-Abre-me essa porta,

(…) Se ela não se abre,

Ela se há-de abrir;

Contigo, menina,

Quero ir dormir.(*)

senão atiravam pedrinhas a certa janela.

não me atireis com pedras,

qu’eu estou a lavar a louça:

atirai-me com suspiros

de modo que ninguém ouça.(*)

Os mais discretos levantavam duas, três telhas, ou forçavam, sem ruido, o portal onde se guarda o gado.

A prudência e o bom senso afastam até os mais incautos dos lugares ermos, das ruínas e das moradas dos que já se foram, principalmente depois da noite cair.

Ó alma dianteira

Toca lá nessa caldeira.

Quando éramos vivos,

Andávamos aqui aos figos;

Agora que somos mortos,

Andamos por estes barrocos.(*)

Mais ainda quando são noites longas escuras e geladas.

 

Lua nova, benze-a Deus:

Minha madrinha, mãe de Deus!

De três coisas me hás-de livrar:

De água corrente,

De fogo ardente,

De línguas de má gente.(*)

Mas que cabeça perturbada, que coração inquieto, que ânsia desvairada, resistiu alguma vez ao apelo da Lua Cheia?

Colléume a noite,

noite brillante,

cunha luniña,

feita de xaspes,

e fun con ela,

camiño adiante,

cas estreliñas

para guiarme,

que aquel camiño

sólo elas saben 4

Nem mesmo quando encoberta por castelos de nuvens ou oculta detrás de muralhas de memórias brumosas.

 

Quem se arrepende e volta atrás já não encontra os passos largados pelo caminho de casa até ali até nenhures. Tarde descobre que, quanto mais luminosa é a Lua, mais escuras são a sombra das árvores, a sombra dos muros e a sombra que o segue.

Quando descobre o vulto duma casa, duma igreja, seu coração acelerado precipita-o adiante, não lhe dando vagar para se interrogar porque é que há lugares afastados de tudo e rodeados de densa mata no caminho de regresso à vida normal.

Eu ame uma estrela

Com tod’amezidade,

E a meia noite seria

Que l’eu pedi pé d’intrada;

E se m’ela diz que não,

Por minhas mãos me matava.(*)

Até a mais alva ermida das velhas histórias de família, local de devoção duma avó querida, santuário de festa e romaria do Verão duma infância feliz, muda de natureza e figura quando se está só e é noite.

“Quem fez esta ermida?

Quem fez esta orada?”-

-”Senhora Santa Helena,

Que um cavaleiro matara.”(*)

Se for noite de Inverno e a Lua espreita pelas frinchas das paredes rachadas, pelos buracos do tecto, velhos demónios e obscuras divindades desafiam quimeras, sonhos e pesadelos de quem os esconjura com sua presença.

-Como te perdoarei eu,

Que fizestes à minha cabeça

O que o lobo faz ao carneiro?

Vai-te para trás do altar,

Servirás de candeeiro.(*)

Que tem a Lua para despertar estas sombras? Ou será dos olhos de quem a vê? Subindo ao alto da serra onde a terra acaba e o céu limita toda a ascensão, ao luar se descobre a mesma Lua em cada olho d’água, em cada lagoa, brilhando com a mesma intensidade da que está no firmamento.

Luar dos poetas e dos miseráveis,

Como se um laço estreito nos unisse,

São similháveis

O nosso destino e o que tens…

De nós, da nossa dor, a turba ri-se

-e a ti, sagrado, ladram-te os cães!²

Também se descobre como a menor brisa na superfície aquática estremece o reflexo. Mas quem tenha  o atrevimento de se descalçar e entrar nos espelhos lunares, confirmará o que toda a criança  sabe: por detrás das aparências escondem-se realidades muito distintas.

Em geral menos óbvias, raramente menos lodosas. E sempre, sempre, surpreendentes.

Naquela serra

Tem meu pai um lameirinho:

De dia rega-o o sol,

De noite o meu  amorzinho.(*) 

   (*) Recolhida da Revista Lusitana dir. José Leite de Vasconcelos   

1 in O Imaginário da Magia de Francisco Bethencourt
  ed.projecto universidade aberta 1987   

2 in luar de janeiro/Luar de Janeiro de Augusto Gil
retirado da edição on-line do Projecto Gutemberg   

3 in ay ondas do mar de vigo de Martim Codax da
edição on-line da Biblioteca Virtual Miguel Cervantes   

4 in fun un domingo/Cantares Gallegos de Rosalia de Castro da
  edição on-line da Biblioteca Virtual Miguel Cervantes          

~ por pepe em Janeiro 3, 2008.

Uma Resposta to “Luar de Janeiro”

  1. Ao ler o teu spot “Luar de Janeiro” deti-me pausadamente em algumas frases e senti-me encantada porque me aproximou dessa realidade que com os sentidos retratas. Uma delas foi esta:

    “por detrás das aparências escondem-se realidades muito distintas.

    Em geral menos óbvias, raramente menos lodosas. E sempre, sempre, surpreendentes.”

    e tal como diz o poema IMPRESSÃO DIGITAL de António Gedeão:

    “Os meus olhos são uns olhos,
    E é com esses olhos uns
    Que eu vejo no mundo escolhos
    Onde outros, com outros olhos,
    Não vêem escolhos nenhuns”

    Os teus olhos têm magia. Mas não só os olhos todos os teus sentidos repousam nesssas paisagens e imagens nesses “sonhos” que vives e revives e por isso os descreves com uma invulgar beleza, como uma mistura misteriosa de “sofrimento” de ternura de suavidade…

    Adelaide Pereira

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